Mostrar mensagens com a etiqueta Mário de Sá-Carneiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário de Sá-Carneiro. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Crise lamentável

Gostava tanto de mexer na vida
De ser quem sou,  mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente
Não ter juízo nos meus livros
Mas chegar ao fim do mês sempre
com as despesas pagas religiosamente.

Não ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas
À minha Torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra e não fazer mais cenas.

Ter força um dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem que empenando vai.
Não mandar telegramas ao meu Pai
Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair
não precisar de hora e meia
 antes de vir prà rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
Perder a frousse das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento
Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que em fantasia apenas argumento

Que tudo é em fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete
E sempre o Oiro em chumbo se derrete
Por meu Azar ou minha Zoina suada...

 (Paris - Janeiro 1916.)



[Mário de Sá-Carneiro]



Pintura óleo sobre Cartão e Tela
(Mário de Sá Carneiro raptando Maria Helena Vieira da Silva, 1972)
Mário Cesariny

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sugestão

As companheiras que não tive
Sinto-as chorar por mim, veladas
Ao pôr do sol, pelos jardins...
Na sua mágoa azul revive
A minha dor de mãos finadas
 Sobre setins...

[Mário de Sá-Carneiro]

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Álcool



Guilhotinas, pelouros e castelos

Resvalam longamente em procissão

Volteiam-me crepúsculos amarelos

Mordidos, doentios de roxidão.



Batem asas d' auréola aos meus ouvidos

Grifam-me sons de côr e de perfumes

Ferem-me os olhos turbilhões de gumes

Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.



Respiro-me no ar que ao longe vem

Da luz que me ilumina participo

Quero reunir-me  e todo me dissipo

Luto, estrebucho... Em vão! Silvo para além...



Corro em volta de mim sem me encontrar...

Tudo oscila e se abate como espuma...

Um disco de ouro surge a voltear...

Fecho os meus olhos com pavor da bruma...



Que droga foi a que me inoculei?

Ópio d' inferno em vez de paraíso?...

Que sortilégio a mim próprio lancei?

Como é que em dor genial eu me eterizo?



Nem ópio nem morfina. O que me ardeu

Foi  álcool mais raro e penetrante:

É só de mim que eu ando delirante

Manhã tão forte que me anoiteceu.



[Mário de Sá-Carneiro]

domingo, 31 de julho de 2011

Serradura

Elise Hardy – Place du Tertre (Montmartre)

 
A minha vida sentou-se
E não há quem a levante
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está
Estendida, a perna traçada
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.
Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias
Espapaçou-se de calma
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock
Lê o “Matin”de castigo
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:
Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo
Ou comichão que não passa.

Folhetim da “Capital”
Pelo nosso Júlio Dantas
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...
O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...
Qualquer dia, pela certa
Quando eu mal me precate
É capaz dum disparate
Se encontra a porta aberta...

Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:
O que era fácil, partindo
Os móveis do meu hotel
Ou para a rua saindo
De barrete de papel
A gritar Viva a Alemanha...
Mas a minha Alma, em verdade
Não merece tal façanha
Tal prova de lealdade...

Vou deixá-la,  decidido
No lavabo dum Café
Como um anel esquecido.
É um fim… mais raffiné.

[Mário de Sá-Carneiro]

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Caranguejola

Vincent Van Gogh

 
Ah, que me metam entre cobertores
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira ...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais, não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom edrédon, bom fogo
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza....

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co’a breca! levem-me prá enfermaria!
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.
Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

[Mário de Sá-Carneiro]