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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Ladaínha horizontal

Como se fossem
 jangadas desmanteladas
vogam no mar da memória
as camas da minha vida...
Tanta cama! Tanta história!
Tanta cama numa vida!

Grabatos, leitos, divãs
a tarimba do quartel
e no frio das manhãs
lívidas camas de hotel...
Ei-las vogando
as jangadas desmanteladas
todas cobertas de escamas
e do sal do mar da vida...
Tanta cama! Tantas camas!
Tanta cama numa vida!

Já os lençóis amarrados
tocam no centro da Terra
(que o reino dos desesperados
fica no centro da Terra!)
e os cobertores empilhados
são monte que não se alcança!
Só as tábuas das jangadas
Desmanteladas
bóiam no mar da lembrança
e no remorso da vida...
Homem sou. Já fui criança.
Tanta cama numa vida!

Nem vão ao fundo as de ferro
nem ao céu as de dossel...
Lembro-vos, camas de ferro
de internato e de bordel
gaiolas da adolescência
ginásios do amor venal!
Barras fixas. Imprudência.
Sem rede, o salto mortal
pra fora da adolescência...
E confundem-se as jangadas
desmanteladas
no mar da reminiscência...
Onde estás, ó minha vida?
Sono. Volúpia. Doença.
Tanta cama numa vida!

E recordo-vos, tão vagas,
vós que viestes depois
ó camas transfiguradas
das furtivas ligações!

Camas dos fins-de-semana
beliches da beira-mar...
Oh! que arrojadas gincanas
sobre os altos espaldares!
E as camas das noites brancas
tão brancas!, tão tumulares!
Ciganos. Beijos. Uísque.
Ó fragílimas jangadas
desmanteladas...!
E nelas há quem se arrisque
sobre os pélagos da vida!
Cigarros. Beijos. Uísque.
Tanta cama numa vida!

E o amor? Tálamo, templo,
conjugação conjugal...
O amor: tálamo, templo
ilha num mar tropical.
Mas ao redor, insistentes
bramam as ondas do mar
do mar da memória ardente
eternamente a bramar...
Já no frio dos lençóis
há prelúdios da mortalha
e, nas camas, sugestões
fúnebres, torvas, pesadas...
Sede, por fim, ó jangadas
desmanteladas
a ponte do esquecimento
prà outra margem da Vida!

Sede flecha, monumento
ponte aérea sobre o Tempo,
redentora madrugada!
Se o não fordes, sereis nada
jangadas desmanteladas
todas roídas de escamas
da margem de cá da Vida...
Pobres camas! Tristes camas!
Tanta cama numa vida!


[David Mourão-Ferreira]

quinta-feira, 26 de abril de 2012

ESCADA SEM CORRIMÃO

É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos
Mais estragados estão
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão.

[David Mourão-Ferreira]

segunda-feira, 26 de março de 2012

PAISAGEM

Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.
Desejei-te encerrada num retrato
para te poder contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno desta praia.
E desejei: Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.
Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.

[David Mourão-Ferreira]

domingo, 1 de janeiro de 2012

A cavalo no vento



A cavalo no vento sobrevoo
o destino sombrio deste porto
aonde um rio vem morder o vulto
do mar confuso.
Ó mar despedaçado
mordido em tanto flanco, o sobressalto
dos teus ombros nervosos já sacode
a terra toda!

E para quê mais portos
agressores, estaleiros rancorosos
onde em surdina e sombra se conspira
contra a vida. . .?

. . . Contra a vida do mar e o seu poder
que só um corpo nu deve merecer!

[David Mourão-Ferreira]

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Coro de Natal

Quem nos garante que estamos vivos
que sequer somos o que fingimos
se atravessamos ruas e praça
sempre com espadas entre as espáduas
e com serpentes em torno aos braços
e com cilícios em vez de cílios
e com os sonhos desarrumados
pelos sorrisos e compromissos
desta comédia de celebrar-te
assegurando que não existes

Quem nos garante que estamos vivos
Ou não seremos somente o lixo
da grande roda que nos esmaga
da grande garra que nos agarra
do grande grito que nem gritado
por todos juntos será ouvido
Quem nos garante se neste espaço
que nos separa só o sigilo
preenche as pausas a grande pausa
de recearmos que tu existas

Quem nos garante que estamos vivos
se atravessando ruas e rios
portas e portos pontes e praças
só deparamos com os esgares
que já tiveram as nossas faces
à mesma hora nos mesmos sítios
Quem nos garante que sob as lajes
de outras cidades de outros jazigos
neste momento ressuscitados
não afirmamos que Tu existes

[David Mourão-Ferreira]

Picasso-"o sonho"

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Deixa ficar a flor

Deixa ficar a flor
A morte na gaveta,
O tempo no degrau.

Conheces o degrau:
O sétimo degrau
Depois do patamar
O que range ao passares
O que foi esconderijo
Do maço de cigarros
Fumado às escondidas...

Deixa ficar a flor.

E nem murmures.
 Deixa o tempo no degrau,
A morte na gaveta.

Conheces a gaveta:
A primeira da esquerda
Que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
Pela janela fora?
Na batalha do ódio
Destruam-se, fechados
Sem tréguas, os retratos!

Deixa ficar a flor.

A flor? Não a conheces.
Bem sei. Nem eu. Ninguém.

Deixa ficar a flor.

Não digas nada. Ouve.
Não ouves o degrau?

Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...

Não digas nada. Ouve:
É com certeza alguém,
Alguém que traz a chave.

[David Mourão-Ferreira]

domingo, 31 de julho de 2011

Nudez

Gala-Salvador Dali

A pressa
com que se despe

Nem na alma lhe apetece
qualquer veste

A pressa
com que se despe

Até da carne e da pele
se pudesse.

[David Mourão-Ferreira]