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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Lamento do Poeta Objectivo

Anda-me o amor tomando a própria vida
como se  amando, eu existisse mais.
E leva-me o Destino em voz traída
como se houvera encontros desiguais.
A multidão me cerca  e  renascida
já dela terei fome de sinais.
E  mal a noite se demora ardida
o medo e a solidão me esfriam tais
as cinzas desse amor que sacrifico.
Não é futura a só miséria.
 A queixa também não é
 e apenas acontece no vácuo imenso
 que este amor me deixa quando maior
 quando de si mais rico
 se dá de mundo em mundo
 e lá me esquece.

[Jorge de Sena]

quinta-feira, 22 de março de 2012

Eternidade

 Vens a mim pequeno
 como um deus
frágil como a terra
morto como o amor
falso como a luz
e eu recebo-te
para a invenção
 da minha grandeza
para rodeio
 da minha esperança
e pálpebras de astros nus.
Nasceste agora mesmo.
 Vem comigo.

[Jorge de Sena]

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Desencontro

Só quem procura sabe
 como há dias de imensa paz deserta
pelas ruas a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste.
Nenhum gesto a um gesto corresponde
olhar nenhum perfura a placidez
como de incesto, de procurar em vão
 em vão desponta a solidão sem fim
 sem nome algum
 que mesmo o que se encontra
 não se encontra.

[Jorge de Sena]

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Gaiola de vidro


Como paredes através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros
quem vamos conhecendo nos rodeia
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.
No espaço dentro (mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas)
nós somos quem nós somos:
só distintos de cada um dos outros
para quem apenas
somos uma face em muitas
pelo que em nós se torna
além do espaço uma visão
de espelhos transparentes.
Mas o que nos distingue não existe.

[Jorge de Sena]

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

No País dos Sacanas

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência
 a justiça, a bondade, etc., etc.
 sejam outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro e o gajo morreu na mesma.

[Jorge de Sena]

terça-feira, 21 de junho de 2011

SÚPLICA FINAL

Senhor: não peço mais que silêncio
o silêncio das noites de planície
 como enevoadas águas
o silêncio dos montes
quando a tarde acabou
e as pedras se afiam na friagem
 que é azul-celeste
o silêncio do sol encarquilhando as folhas
e o vento na areia depois de ter passado
o silêncio das ondas  ao longe
 espumejando tranquilas
o silêncio das mãos e o dos olhos
e o das aves negras que pairam nas alturas
de um céu silencioso e límpido.
 Não peço mais que silêncio.
 O silêncio das ideias que deslizam
no tecto escorregadio da  memória silente.
E o silêncio dos sonhos coloridos
 e o dos outros a preto e branco
 imagens desejadas que não pensei
que desejava e esqueço
ao querer lembrá-las.
 E o silêncio dos sexos
 que se possuem sem uma palavra.
E o do amor também
 tão silencioso esse
que não sei quem amo.
Não peço mais.
 Afasta de mim o estrondo:
 não o das cidades, ou dos homens
 das águas, do que estala na memória
 ou penumbra das salas desertas.
Afasta de mim o estrondo
 com que a vida se acabará contigo
 num rasgar de súbito
em que ficarei inerte e  silencioso.
 O estrondo em que não ouvirei mais nada.
 O estrondo  em que não  mexerei um dedo.
 O  estrondo  em que serei desfeito.
O estrondo em que de olhos abertos alguém mos abrirá.
Senhor: não peço mais do que o silêncio do mundo
o silêncio dos astros, o silêncio das coisas
que outros homens fizeram
 e o das coisas que eu próprio fiz.
 E o teu silêncio de senhor que foi.
Não peço mais.
Não é nada o que peço.
Dá-me o silêncio.
 Dá-me o que não fui:
silêncio (porque calei tanto):
o que não  sou (pois que calo tanto):
o que hei-de ser (já que falar não adianta):
Silêncio.
Senhor: não peço mais.

[Jorge de Sena]