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domingo, 17 de junho de 2012

O AUTO-RETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

[Mário Quintana]

domingo, 8 de abril de 2012

Quando eu me fôr

Quando eu me fôr
os caminhos continuarão andando...
E os meus sapatos também!
Porque os quartos, as casas que habitamos
Todas, todas as coisas que foram nossas na vida
Possuem igualmente os seus fantasmas próprios
Para alucinarem as nossas noites de insónia!

[Mário Quintana]

domingo, 22 de janeiro de 2012

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

[Mário Quintana]

sábado, 17 de dezembro de 2011

AMOR É SÍNTESE


Por favor, não me analise
Não fique procurando
cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste
a uma análise profunda
Quanto mais eu...

Ciumento, exigente
inseguro, carente
Todo cheio de marcas
que a vida deixou
Vejo em cada grito
de exigência
Um pedido de carência
 um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue
abraçar um pedaço
Me envolva todo
em seus braços
E eu serei
o perfeito amor.

[Mário Quintana]

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A CANÇÃO DA VIDA


A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupío...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

[Mário Quintana]

Foto de Aline Monique

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Tão Linda e Serena e Bela

Tão lenta e serena e bela e majestosa
vai passando a vaca
Que, se fora na manhã dos tempos
de rosas a coroaria
A vaca natural e simples
 como a primeira canção
A vaca, se cantasse
Que cantaria?
Nada de óperas
 que ela não é dessas, não!
Cantaria o gosto dos Arroios
 bebidos de madrugada
Tão diferente do gosto
 de pedra do meio-dia!
Cantaria o cheiro dos trevos machucados.
Ou, quando muito
A longa, misteriosa vibração
 dos alambrados...
Mas nada de super-aviões
 tractores, êmbolos
E outros truques mecânicos!

[Mário Quintana]

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Canção da Primavera

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enlouqueceu
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos
Amadas, Mortos, Amigos
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

[Mário Quintana]

sexta-feira, 1 de julho de 2011

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida (a verdadeira )
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém (ao voltar a si da vida)
acaso lhes indaga que horas são...

[Mário Quintana]