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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Não é música

Não é música o que ouvimos.
Não é de água este brilho de prata.

Eu estou aqui sobre as pontes do rio.
Outros são os que espreitam pela bruma das margens.

Talvez me lembre:
tu vinhas devagar pelo lado das acácias.
Cingias cada árvore e as colunas
 os braços de um deus cruel
o saber dos templos.

Não é um salmo o que ouvimos.
Não é de harpas este lamento
não é o ofício das mãos esculpindo um rosto
não é a palavra de deus que ecoa nas escarpas.

Algures te ocultas e não deixas sinais.
Quem és tu, cujo perfil se desvanece
 cuja doçura se perde nos confins da tarde?

Eu estou aqui onde se unem as margens
 onde escurecem as sendas e as sombras
onde correm as nuvens, as pedras, as águas.

Outros são os que te aguardam, pelo lado das acácias.


[José Agostinho Baptista]

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

SILÊNCIO

Foto de Igor Moreira Gomes, Curitiba, PR

Uma noite
quando o mundo já era muito triste
veio um pássaro da chuva e entrou no
teu peito
e aí, como um queixume
ouviu-se essa voz de dor
que já era a tua voz
como um metal fino
uma lâmina no coração dos pássaros.

Agora
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa
encostada à garganta.

[José Agostinho Baptista]



terça-feira, 16 de agosto de 2011

Despedida

Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia
 e não sei se foi amor.
Certo rumor de cálices
 uma súplica ao dealbar das ruínas
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda
 a lembrança do sul, a sua extrema dor anoitecida.
Não vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada
 dos passos em que me entristeço
 a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia
 as tuas rosas floriam no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios  a profanação do jasmim
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes  e morre.
Esta música é quase o vento.

[José Agostinho Baptista]

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Da Nossa Morte

Agora é tarde.
Ninguém responde às cartas
 que escrevi e atirei ao mar
quando pensei que um dia
 serias como esse marinheiro
 que num sonho antigo
 abençoava o filho
 e depois partia nas asas do albatroz.

Agora é tarde.
Ninguém responde à sombria música
 dos meus punhos golpeando a cadeira vazia
a mesa, as folhas em branco
 onde uma única palavra se aproxima
manejando as suas armas
três letras, três sinais de fogo.

Agora é tarde.
Ninguém cala os tempestuosos rios
 no fundo dos meus olhos
quando penso nos vermes
nas viscosidades que te procuram
 através do cetim.

[José Agostinho Baptista]