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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Homem

 Inútil definir
 este animal aflito.
Nem palavras
nem cinzéis
nem acordes
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito
 a menos infinito.

[António Gedeão]

sábado, 7 de abril de 2012

ESTA É A CIDADE

Esta é a Cidade e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita
Esgueira-se, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!

São automóveis, lambretas
motos, vespas, bicicletas
carros, carrinhos, carretas
e gente, sempre mais gente
gente, gente, gente, gente
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

Uma circe peregrina
pedúnculo de vorticela
perpassa sob a janela
incandesce-me a retina.
Anda como sobre escolhos
irradiando fragrância.
Envolvo-a toda nos olhos
possuo-a mesmo à distância.

A multidão chama por mim.
Chama e reclama
que eu nela, sou princípio e fim.

Lá vou, lá vou.
Galgo os lanços da escada de roldão
e fluo, coloidalmente disperso
crepúsculo e onda, sem anverso nem reverso
fagocitado pela multidão.

[António Gedeão]


Ribeira do Porto  - Aguarela de Real Bordalo

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Soneto...

 Não pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.

Busca no rosto a cor que mais o ajude
magoado parecer aos olhos pede
pois quando a fala a tudo o mais excede
não pode ser Amor com tal virtude.

Também eu das palavras me arreceio
também sofro do mal sem saber onde
busque a expressão maior do meu anseio.

E acaso perde, o Amor que a fala esconde
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos  e responde.

[António Gedeão]

domingo, 8 de janeiro de 2012

Poema do Homem Só

Sós
irremediàvelmente sós
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta

quer se grite ou não se grite
nenhum dar-se de outro se refracta
nenhum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento

sou eu só e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços

dão-se os olhos, dão-se os dedos
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos
dão-se as noites  e dão-se os dias
dão-se aflitivas esmolas
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias
dão-se os nervos, dá-se a vida
dá-se o sangue gota a gota
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto

que no silêncio concreto
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo
este ser-se sem disfarce
virgem de mal e de bem
este dar-se, este entregar-se
descobrir-se  e desflorar-se
é nosso de mais ninguém.


[António Gedeão]



sábado, 29 de outubro de 2011

TEMPO DE POESIA

Todo o tempo é de poesia.
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.

Todo o tempo é de poesia.

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.

[António Gedeão]

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

AMOR SEM TRÉGUAS

É necessário amar
qualquer coisa, ou alguém
o que interessa é gostar
não importa de quem.

Não importa de quem
nem importa de quê
o que interessa é amar
mesmo o que não se vê.


Pode ser uma mulher
uma pedra, uma flor
uma coisa qualquer
seja lá do que for.

Pode até nem ser nada
que em ser se concretize
coisa apenas pensada
que a sonhar se precise.

Amar por claridade
sem dever a cumprir
uma oportunidade
para olhar e sorrir.

Amar como o homem forte
só ele o sabe e pode-o
amar até à morte
amar até ao ódio.

Que o ódio, infelizmente
quando o clima é de horror
é forma inteligente
de se morrer de amor.

[António Gedeão]

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

FORMA DE INOCÊNCIA


Hei-de morrer inocente
Exactamente como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
Enregela como um gume vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ser igual.

[António Gedeão]