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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

POEMA DE AMOR


Esculpi-te na água
De todas as nascentes.
Nas raízes das árvores
nas folhas e nos frutos
Nos troncos mais firmes
E nas copas brancas.
Esculpi-te nos ventos
que vão para sempre
E nos que regressam
à rosa quebrada
Carregados de cores.
Esculpi-te na rosa-dos-ventos.
Esculpi-te no fogo diurno.
No avesso do fogo.
Esculpi-te na terra.
Esculpi-te na sombra
no silêncio...
Levantaram-se chamas...

[Cristovam Pavia]

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Requiem (ao menino morto, eu próprio)

A tarde declina com uma luz ténue.
Estou grave e calmo.
E não preciso de ninguém
Nem a luz da tarde me comove: entendo-a.
Até as imagens me são inúteis porque contemplo tudo.

Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam
E voltam. São os mesmos.
Como os conheço desde a infância!
E a terra húmida das tapadas da quinta...
O estrume da égua morta quando eu tinha seis anos
Gira transparente nesta brisa fria...
(Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das ervas)
Oh, não há solidão, nas neblinas de inverno
Pela  erma planície...

E foi engano julgar-te morto e tão só nas tapadas em silêncio...

Agora sei que vives mais
Porque começo a sentir a tua presença, grande como o silêncio...
Já me não vem a vaga tristeza do teu chamamento longínquo
Já me confundo contigo.

[Cristovam Pavia]

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

“Suster o peso da hora…”

      Não fugir.
        Suster o peso da hora
        Sem palavras minhas
        e sem os sonhos fáceis
        e sem as outras falsidades.
        Numa espécie de morte mais terrível
        Ser de mim todo despojado
        Ser abandonado aos pés como um vestido.
        Sem pressa atravessar a asfixia.
        Não vergar.
        Suster o peso da hora
        Até soltar sua canção intacta.

       [Cristovam Pavia]

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Na noite da minha morte

Na noite da minha morte
Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo...
E os campos libertos enfim da sua mágoa
Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

Na noite da minha morte
Ninguém sentirá o encanto antigo
Que voltou e anda no ar como um perfume...
Há-de haver velas pela casa
E  xailes negros e um silêncio que eu
Poderia entender.

 Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar
Vejam subitamente...
Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam
 no silêncio da casa velando
E mesmo que não saibas de onde vem
 nem porque vem
Talvez só tu a não esqueças.

[Cristovam  Pavia]