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terça-feira, 24 de abril de 2012

E de Novo, Lisboa...

 E de novo, Lisboa, te remancho
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho
ou o outro vermelho que te molha.

Sangue na serradura ou na calçada
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada
cerceado do coração que foi.

Groselha, na esplanada, bebe a velha
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos  Lisboa, os dois, aqui
na terra onde nasceste e eu nasci?

 [Alexandre O'Neill]

segunda-feira, 12 de março de 2012

A Morte, esse Lugar comum

 É trivial a morte e há muito se sabe
fazer  e muito a tempo:  o trivial.
Se não fui eu quem veio no jornal
foi uma tosse a menos na cidade...

A caminho do verme, uma beldade
não dirias assim, Gomes Leal?
vai ser coberta pela mesma cal
que tapa a mais intensa fealdade.

Um crocitar de corvo fica bem
neste anúncio de morte para alguém
que não vê n'alheia sorte a própria sorte...

Mas por que não dizer, com maior nojo
que um menino saiu do imenso bojo
de sua mãe, para esperar a morte?...

[Alexandre O'Neill]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Soneto inglês

Como o silêncio do punhal num peito
O silêncio do sangue a converter
Em fio breve o coração desfeito
Que nas pedras acaba de morrer

Vive em mim o teu nome, tão perfeito
Que mais ninguém o pode conhecer!
É a morte que vivo e não aceito
É a vida que espero não perder.

Viver a vida e não viver a morte
Procurar noutros olhos a medida
Vencer o tempo, dominar a sorte

Atraiçoar a morte com a vida!
Depois morrer de coração aberto
E no sangue o teu nome já liberto...



[Alexandre O´Neill]

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O quotidiano "não"


Estamos todos bem servidos
de solidão.
De manhã a recolhemos
do saco, em lugar de pão.
Pão é claro que temos
(não sou exageradão)
mas esta imagem do saco
contendo um pequeno «não»
não figura nesta prosa
assim do pé para a mão
pois o saco utilizado
que pode ser o do pão
recebe modestamente
a corriqueira fracção
desse alimento que é
tão distribuído, tão
a domicílio como
o leite ou o pão.
Mas esse leitor aí
(bem real!) já diz que não
que nunca viu no tal saco
o tal «não».
Ao que o poeta responde
sem maior desilusão:
Para dizer a verdade
eu também não...
Mas estava confiante
na sua imaginação
(ou na minha...) e que sentia
como eu a solidão
e quanto ela é objecto
da carinhosa atenção
de quem hoje nos fornece
o quotidiano «não»
por todos os meios, desde
a fingida distracção
até ao entre-parêntesis
de qualquer reclusão...


[Alexandre O´Neill]

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Se é possível

Se é possível conservar a juventude
Respirando abraçado a um marco de correio
Se a dentadura postiça se voltou
contra a pobre senhora e a mordeu
Deixando-a em estado grave
Se ao descer do avião
 a Duquesa do Quente
Pôs marfim a sorrir
Se o Baú-Cheio
 tem acções nas minas de esterco
Se na América
 um jovem de cem anos
Veio de longe ver o Presidente
A cavalo na mãe.
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
E a oferece aos hospitais do seu país
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços
Se reentrante,pretuberante,perturbante
Lola domina ainda os portugueses
Se o Jorge(o "ponto" do Jorge!)
tentou beber naquela noite
O presunto de Chaves por uma palhinha
E o Eduardo não lhe ficou atrás
Ao saír com a lagosta pela trela
Se "ninguém me ama porque tenho mau hálito
E reviro os olhos como uma parva"
Se Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
Cantar com o Alberto...

...Acaso o nosso destino,tac! vai mudar?

[Alexandre O'Neill]