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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Até que um Dia...

Pintura a óleo de Anita Malfatti
(Fernanda de Castro. 1922)
Meus versos eram rosas, lírios, heras
borboletas, regatos, cotovias
cantando suas doces melodias
anjos, sereias, ninfas e quimeras.

Meus versos eram pombas entre as feras
e  na festa das horas e dos dias
ia dançando penas e alegrias
e o ano tinha quatro primaveras.

E a festa continua... é também festa
o cardo e a urze, o tojo, a murta, a giesta
a chuva no beiral, o vento Norte,

o gosto a mar, a lágrimas, a sal
até que um dia a vida, a bem ou mal
exausta de cantar me empreste à morte.

[Fernanda de Castro]

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Distância

 Não vás para tão longe!
Vem sentar-te aqui
 na chaise-longue ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.

Não vás para tão longe
Quero ver se ainda sabes olhar-me
 como d'antes e se nas tuas mãos acariciantes
Inda existe o perfume de que eu gosto.

Não vás para tão longe!
Tenho medo do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!

Não vás para tão longe!
Antigamente, era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço, hesitas e depois
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente o meu abraço.

Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!

Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento
que além se avista
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...

Céu apagado, negro, pessimista
E tu sempre mais longe!...

[Fernanda de Castro]


Pintura a óleo de Anita Malfatti
(Fernanda de Castro. 1922)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Alma Serena

Alma serena, a consciência pura
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura
dilui-se ao longe a derradeira festa.

Não me tentam as rotas da aventura
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim o meu canto fácil de entender
como chuva a cair, planta a nascer
como raiz na terra, água corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro
Eu não canto, porém, atrás dum muro
eu canto ao sol e para toda a gente.

[Fernanda de Castro]

terça-feira, 12 de julho de 2011

Parti com o vento

João Barcelos (Vento do Sudoeste)

Parti com o vento. O mar cheirava a sal.
Rangiam mastros, estalava a quilha
mas ganhando a distância, milha a milha
o meu barco vencia o temporal.

Finalmente aproámos a uma ilha
envolvida num tépido areal
onde não vimos rasto de animal
mas que cheirava a sândalo e a baunilha.

Seria o céu? À sombra de um coqueiro
repousavam asas do veleiro
como asas dum pássaro doente...

Bananeiras, hibiscos e bambus
leite de coco, sumo de cajú...
Seria o céu?, Talvez, mas sem serpente.

[Fernanda de Castro]

domingo, 3 de julho de 2011

Nocturno



 
Devagar, devagar... A noite dorme
e é preciso acordar sem sobressalto.
Sob um manto de sombra, denso, informe
o mar adormeceu a sonhar alto.

Devagar, devagar... O rio dorme
sobre um leito de areias e basalto...
Malhada pela neve a serra enorme
parece um tigre a preparar o salto.

E dorme o vale em flor. Dormem as casas.
Nenhum rumor. Nenhum frémito de asas.
Nada perturba a noite bela e calma.

E dormem os rosais, dormem os cravos...
Dormem abelhas sobre o mel dos favos
e dorme, na minha alma, a tua alma.


[Fernanda de Castro]