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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Nenhuma Morte Apagará os Beijos

 Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos
 ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.

Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor.
Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes
a nossa alma líquida e atormentada
                                                            

desvenderá em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.

[Joaquim Pessoa]

domingo, 1 de abril de 2012

Houve uma Ilha em Ti

 Houve uma ilha em ti
 que eu conquistei.
Uma ilha num mar de solidão.
Tinha um nome a ilha onde morei.
Chamava-se essa ilha, Coração.

Que saudades do tempo que passei.
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já nada sei.
Também não sei da ilha, não sei  não.

Só sei de mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra a recordar.

A ilha que eu amei já não existe.
Agora amo o céu quando estou triste
por não saber, do coração do mar.

[Joaquim Pessoa]

quarta-feira, 7 de março de 2012

Morrer de Amor é Assim

Quem morre de tempo certo
ao cabo de um certo tempo
é a rosa do deserto
que tem raízes no vento.

Qual a medida de um verso
que fale do meu amor?
Não me chega o universo
porque o meu verso é maior.

Morrer de amor é assim
como uma causa perdida.
Eu sei e falo por mim
vou morrer cheio de vida.

Digo-te adeus, vou-me embora
que os versos que eu te escrever
nunca os lerás, sei agora
que nunca aprendeste a ler.

Neste dia que se enquadra
no tempo que vai passar
termino mais esta quadra
feita ao gosto popular.

[Joaquim Pessoa]

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Os Amantes com casa

 Andavam pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte voltavam a andar pela casa
 amando-se no chão e contra as paredes.
Então era a música como se cada corpo
 atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença
 agora serena e mais pobre
 mas ávidamente rica por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne era a carne do amor
era o fogo do amor, o fogo de arder
amando-se e por toda a casa
contra as paredes, no chão.
Se mais não pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos por amor de olhar
por olhar o amor.
E no chão contra as paredes se amaram
 E pela casa andavam
 Como se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um no outro eram livres
e para a vida e para o amor se beijaram
magoando-se mais, até ficarem magoados.
E uma presença rica, agora nova e mais serena,
ávidamente recebeu a música que atravessou de
um corpo a outro corpo, chegando às mãos
onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo
incarnando o amor, incarnando o fogo
contra o chão das paredes se amaram
pressentindo que andando pela casa
 bastaria tocarem-se para ficarem dormindo
como acordam as aves.

[Joaquim Pessoa]


(“Os amantes”de René Magritte)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Beijo os teus seios e a tarde comove-se

Pintura de Conceição

Beijo os teus seios e a tarde comove-se
como se tocassem sinos.
Levanto a tua cabeça entre os meu dedos
 e abro contra o dia os teus cabelos
e  logo, as aves do silêncio levantam voo
e dançam loucas em volta dos teus olhos
e a tua boca aperta-se,morde a minha boca
enquanto as minhas mãos vão procurando
 nenhum deus à flor da tua pele
por esse caminho branco
 onde agonizam éguas vestidas de primavera.

[Joaquim Pessoa]


domingo, 3 de outubro de 2010

Outono

Outono

    Uma lâmina de ar, atravessando as portas.
    Um arco, uma flecha cravada no Outono e a canção
    que fala das pessoas, do rosto e dos lábios das pessoas.
    E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
    uma amarra, à espera do mar esperando o silêncio.
    É Outono, uma mulher de botas atravessa-me a tristeza,
    quando saio para a rua molhado como um pássaro.
    Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
    da minha revolta última ou do teu nome que repito.
    Hoje há soldados, eléctricos, uma parede cumprimenta o sol.
    Procura-se viver, vive-se de resto em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
    há homens e mulheres, que compram o jornal e amam-se
    como se de repente, não houvesse mais nada, senão
    a imperiosa ordem de (se) amarem.
    Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
    Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
    Não há um nome para a tua ausência.
    Há um muro que os meus olhos derrubam.
    Um estranho vinho que a minha boca recusa.
    É Outono, a pouco e pouco despem-se as palavras.

[Joaquim Pessoa]