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terça-feira, 26 de julho de 2011

A dor que a minha alma sente


Camões, por Júlio Pomar

A dor que a minha alma sente...
Não a saiba toda a gente...
Que estranho caso de amor...
Que desejado tormento...

Que venha a ser avarento
Das dores da minha dor!

Por me não tratar pior
Se sabe ou se sente, não a digo a toda a gente!

Minha dor e a causa dela.
A ninguém ouso falar.

Que seria aventurar
A perder-me ou perdê-la
Pois só em padece-la a minha alma está contente.

Viva no peito escondida... Dentro da alma sepultada...
Ou me mate... Ou me dê vida...
Ou viva eu triste ou contente
Não quero que saiba a gente!

[Luis Vaz de Camões]

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Perdigão perdeu a pena

Perdigão perdeu a pena

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado
E vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

[Luís Vaz de Camões]

sexta-feira, 14 de março de 2008

Com que voz



Com que voz, chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que amor não seja a dor que me deixou
o tempo...de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado

aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,

ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé, que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,

devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.

[Luiz de Camões / Alain Oulman
]