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domingo, 20 de maio de 2012

Canção grata

Por tudo o que me deste
Inquietação, cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insónia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Saudades


Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci
Para mais doidamente me lembrar
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

                     [Florbela Espanca]

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Charneca em Flor

Enche o meu peito, num encanto mago
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade
Dispo a minha mortalha, o meu burel
E já não sou Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

                              [Florbela Espanca]

sábado, 24 de março de 2012

Volúpia

 No divino impudor da mocidade
Nesse êxtase pagão que vence a sorte
Num frémito vibrante de ansiedade
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 9 de março de 2012

Perdi os Meus Fantásticos Castelos


 Perdi os meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
Tantos escolhos! Quem podia vê-los?
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel
A minha cota de aço, o meu corcel
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...

[Florbela Espanca]

sábado, 3 de março de 2012

Anseios

Meu doido coração aonde vais
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade
Meu pobre coração olha, cais!

Deixa-te estar quietinho!
 Não amais a doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!...
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!

Não estendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge
Na paz da tua cela, a soluçar!...

[Florbela Espanca]

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Meu Soneto

Em atitudes e em ritmos fleumáticos
Erguendo as mãos em gestos recolhidos
Todos brocados fúlgidos, hieráticos
Em ti andam bailando os meus sentidos...

E os meus olhos serenos, enigmáticos
Meninos que na estrada andam perdidos
Dolorosos, tristíssimos, extáticos
São letras de poemas nunca lidos...

As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d´amor trazem de rastos...

E a minha boca, a rútila manhã
Na Via Láctea, lírica, pagã
A rir desfolha as pétalas dos astros!..

[Florbela Espanca]