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domingo, 10 de junho de 2012

Encanta-me com resquícios de lua

Serena a montanha quando acorda
Com ela acordam cheiros
fragrâncias que se espreguiçam
como risos azuis buscando o dia

Despertam árvores
estendendo ramos

Renasço
paulatinamente
no respirar do teu corpo descansado

Deixa que me deite
no leito da tua pele
para que te sussurre:
Espalha o teu sonho
pelo meu avesso.

[Cristina Miranda]

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Tilintar de Orvalho


Acerco-me da maior janela
Para desfrutar da mais bela paisagem
A realidade a perder de vista...

Enquanto te procuro
Ouço a voz
O tilintar do orvalho sobre os pastos
O canto das flores, em correrias
Cabriolando sobre carreiros verdes...

Quando te vejo
Ainda com o aroma do acordar nos ombros
Estendo os meus olhos
Até te alcançar os passos
Até te tocar de leve
Até te acompanhar
Sentindo a frescura beliscar leve as nossas frontes.

E quando já de volta
Me dás o braço
Trazendo ramos de satisfação
Que vens pôr
Como serenatas
Debaixo da nossa janela
Não deixamos cair Outonos
Nem adiamos Estios
Apenas nos sentamos
Calmos
Em bancos de Primaveras.

[Cristina Miranda]

sábado, 5 de novembro de 2011

Sonho

Falo-te dum sonho
Daquele que tantas vezes tenho.
Dispo a ansiedade
Desapertando
Botão a botão
Desejos insaciáveis
Até ficar despida, um instante…

Aliso o leito
Aquele mar por ti amado.
Com ele me cubro
Apagando a luz da realidade
Deixando apenas acesa
A lua da imaginação…

Agora, fecho os olhos.
Não há tempo, distância, matéria…
De mim só existe a alma
Coberta por um mar de mil cores
Que não te explico
Que conheces
Bem melhor do que eu.

Assim fico
Escrevendo esta quase imitação de carta
Tão sem tempo!
Tenho frio!
Tardas!

Eis senão quando
Quase no fim do horizonte
Onde o teu mar abraça a minha lua
Vejo uma ave voando
E  que  num bailado único
Raiado de verde e de azul
De mim se aproxima
À minha alma se dirige.

Quase não me mexo…
(e tão ansiosa me sinto!)
Para que de mim se não desvie
O voo daquela ave.
Levanto a ponta do mar
Preparo um espaço
Uma praia
Neste leito onde estou
E peço a Deus
Que o bater do meu coração
A não afugente…

Percebo que és tu!
Ainda assim
Fico-me neste aparente sossego…
Sobrevoas-me
Sem um bater de asas
Acabando por pousar
No areal imenso que para ti preparei.
Que mais dizer?
Calar este meu desejo?
Afinal havia tempo!
E é desse tempo que te falo.

Desvendo agora o meu segredo:
Do meu corpo me distanciei
Para que na minha alma pousasses.
Agora estás em mim!
Sobe pelo meu corpo
E deixa que no teu
O meu se derrame…
Fiquemos assim
Tendo como limite
O espelho do nosso encontro:
Um mar, uma lua, uma brisa…

Falei-te dum sonho.
Foi meu
Talvez teu
Mas agora é nosso!
Completou-se o triângulo:
Um vértice – Tu!
Outro – o Mar!
O último – Eu!

[Cristina Miranda]

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Infinito


Comprazemo-nos
trajando adolescências
abafando o som dos risos
quando nos espreitamos à socapa
pela cortina que afastamos
na janela dos nossos dedos.

Deleitosa esta espécie de olhar de garotos
nesta ciranda em que dançamos
visualizando-nos tão bem
que nos tocamos.
Fundamental saber o que amamos tanto
com as mãos do imaginário
com os olhos rasos de mil pedaços
nesta imagem de estarmos juntos.
Relevante que nos emocionemos
ao experimentar com análoga intensidade
desenlear do tempo comum
o tempo só nosso.
Singular a carência de cruzarmos silêncios
de não nos deixarmos concluir
numa interrupção atabalhoada
própria do desejo de nos mantermos conspirados.

Temos ainda tanto para trocar entre nós.
Temos um mundo próprio
esta paisagem pré concebida,
grafitada num muro de uma avenida qualquer
só pelo prazer de nos vermos
quando por ela nos circulamos.

Importa o resto?
Claro que não!
Importa que continuemos a compartir silêncios ilimitados.
Enquanto continuarmos nesta permuta
Importam-nos sim
as frases
imagens nossas que prendemos na lapela
condecorações deste bem-estar que cogitámos:
Falta um infinito imenso!
Falta o inimaginável para que nos dissipemos!

[Cristina Miranda]