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domingo, 10 de julho de 2011

A Mulher Mais Bonita do Mundo

Pablo Picasso

estás tão bonita hoje.
quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

[José Luís Peixoto]

sábado, 25 de junho de 2011

o tempo, subitamente solto

o tempo
 subitamente solto
 pelas ruas e pelos dias
como a onda de uma tempestade
 a arrastar o mundo
mostra-me o quanto te amei
 antes de te conhecer.
eram os teus olhos
 labirintos de água
 terra, fogo, ar
que eu amava
 quando imaginava
 que amava.
era a tua, a tua voz
que dizia as palavras da vida.
 era o teu rosto.
 era a tua pele.
 antes de te conhecer
 existias nas árvores
 e nos montes e nas nuvens
 que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim
 dentro de mim
 eras tu a claridade.

[José Luís Peixoto]

sábado, 11 de junho de 2011

fingir que está tudo bem

fingir que está tudo bem:
o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro
rastos de chamas dentro do corpo
 gritos desesperados sob as conversas:
 fingir que está tudo bem:
olhas-me e só tu sabes:
na rua, onde os nossos olhares
 se encontram é noite:
as pessoas não imaginam:
 são tão ridículas as pessoas
 tão desprezíveis:
 as pessoas falam e não imaginam:
 nós olhamo-nos:
fingir que está tudo bem:
 o sangue a ferver sob a pele
 igual aos dias antes de tudo
 tempestades de medo nos lábios a sorrir:
 será que vou morrer? pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?
 olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa
 fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem:
 ter de sorrir: um oceano que nos queima
 um incêndio que nos afoga.

[José Luis Peixoto]

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

o tempo, subitamente solto

o tempo, subitamente solto

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar
que eu amava quando imaginava que amava.
era a tua a tua voz que dizia as palavras da vida.
era o teu rosto.era a tua pele. antes de te conhecer
existias nas árvores e nos montes e nas nuvens
que olhava ao fim da tarde.muito longe de mim
dentro de mim, eras tu a claridade.

[José Luís Peixoto]

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Palavras para a Minha Mãe


mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe e esperar não é suficiente.
pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa mãe e sei que pedir desculpa não é suficiente.
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.
lê isto: mãe, amo-te.
eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

[José Luís Peixoto]