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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DIAGNÓSTICO, POSOLOGIA, ADMINISTRAÇÃO


Finalmente curei-me. Os nomes em que assento
a frase são só nomes de figura sem forma.
É pena os advérbios, mas o meu objectivo
é reduzir de vez aplicação e norma.

Finalmente curei-me. Isso nota-se até
na tentativa (quase) de adjectivos ausente.
É pena os advérbios, mas qualquer terapia
pressupõe um transfer, mesmo que finalmente.

Por cavalos sem rédeas de qualificação
neste pós-operatório movimento de agora
sonho um espaço e um tempo de fala e amplidão.

E na totalidade de uma cura verbal
vejo-me em prognóstico a escrever o futuro
sem dependência da morfina adverbial.

[Ana Luísa Amaral]

sábado, 8 de outubro de 2011

Da oferta e da procura

Com tanta angústia em stock
não sei o que fazer:
acumulada é tanta
que o coração assim
não cabe mais

Vendo-a barata, avulso
à vontade de bolso ou contentor
na quantidade exacta
que o desejo traz

Ou troco um quilo dela
por grama de suor

…ou meio grama de paz

[Ana Luísa Amaral]

sábado, 3 de setembro de 2011

Metamorfoses


Faça-se luz
neste mundo profano
que é o meu gabinete de trabalho:
uma despensa.

As outras dividiam-se por sótãos
eu movo-me em despensa
com presunto e arroz
livros e detergentes.

Que a luz penetre
no meu sótão mental
do espaço curto

E as folhas de papel
que embalo docemente
transformem o presunto
em carruagem!

[Ana Luísa Amaral]

quarta-feira, 16 de março de 2011

Estragas-me a paz

Óleo sobre tela de Fernando Botero

Estragas-me a paz.
e eu preciso das minhas solidões
de bocados mentais sem ti.

Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
por aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda estragada
quando te penso amor.

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.

[Ana Luísa Amaral]