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terça-feira, 1 de maio de 2012

P U D O R


Vens, e não sonho mais
Quebra-se a onda no penedo austero.
E o mar recua, sem haver sinais
De que te quero.

Não sei amar, ou amo o que me foge.
Já com Deus foi assim, na juventude:
Dei-lhe a paixão que pude
Enquanto o namorava na distância
Depois, ou medo, ou ânsia
De maior perfeição
Vi-o junto de mim e fiquei mudo.
Neguei-lhe o coração.
E então perdi-o, como perco tudo.

[Miguel Torga]

sexta-feira, 16 de março de 2012

Princípio

 Não tenho deuses.
 Vivo desamparado.
Sonhei deuses outrora
Mas acordei.
Agora, os acúleos são versos
E tacteiam apenas
A ilusão de um suporte.
Mas a inércia da morte
O descanso da vide na ramada
A contar primaveras uma a uma
Também me não diz nada.
A paz possível é não ter nenhuma.

[Miguel Torga]

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Tantas formas revestes...

Tantas formas revestes
e nenhuma me satisfaz!
Vens às vezes no amor
e quase te acredito.
Mas todo o amor
é um grito desesperado
Que ouve apenas o eco.
Peco por absurdo humano
Quero não sei que cálice profano
Cheio dum vinho herético e sagrado

[Miguel Torga]

terça-feira, 22 de novembro de 2011

AMEAÇA DE MORTE

 Não basta ter-me dado
nos meus versos:
Pedem a carne e a pele
os inimigos.
Os olhos, dois postigos
De olhar o mundo
sem ninguém me ver
Querem-nos entaipado
E quebrados, os braços
que eram ramos a crescer.

Luto, digo que não
peço socorro
Mas saiu-me ao caminho
uma alcateia.
Lobos da liberdade alheia
Que me seguem os passos
hora a hora
Sem que eu possa
sequer adivinhar
Na paisagem
do medo tumular
Qual deles salta primeiro
e me devora.

[Miguel Torga]

domingo, 16 de outubro de 2011

Da Realidade

Que renda fez a tarde no jardim
Que há cedros que parecem de enxoval?
Como é difícil ver o natural
Quando a hora não quer!
Ah! não digas que não ao que os teus olhos
Colham nos dias de irrealidade.
Tudo então é verdade
Toda a rama parece
Um tecido que tece
A eternidade.

[Miguel Torga]

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Bilhete

Não te sei dizer mais.
Depois de tantos versos
Que te baste o silêncio
Dum poeta ardente
Que sempre, naturalmente
Foi além das palavras
Do amor, amando.
Que, em cada beijo
Selava os lábios que o nomeavam.
Que aprendeu, a sofrer
Que tudo acontecia
No acontecer.
Que, até nas horas de evasão, sabia
Que a verdadeira vida vive-se a viver.


[Miguel Torga]

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Certeza

Sereno, o parque espera.
Mostra os braços cortados
E  sonha  a primavera
Com seus olhos gelados

É um mundo que há-de vir
Naquela fé dormente
Um sonho que há-de abrir
Em ninhos e semente.

Basta que um novo Sol
Desça do velho céu
E diga ao rouxinol
Que a vida não morreu.


[Miguel Torga]

sábado, 30 de julho de 2011

Frustração

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.

[Miguel Torga]

sábado, 21 de maio de 2011

Agonia

Agonia

Encho de nada
A concha
Das mãos vazias...
Que me pedias
Que não posso dar-te
Desespero?
Água de que nascente?
Pão de que sementeira?
Queira ou não queira
A esperança
A hora é de secura
E de miséria
Por toda a parte...
Enganar-te?
Inventar
Miragens de frescura
E de fartura
No deserto da vida?
De que valia
Mais essa ilusão?
O cálice de amargura
Tem amargura
Seja bebida
Ou não...

[Miguel Torga]