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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese:
o amor que se despeja no copo da vida
 até meio, como se o pudéssemos beber de um trago.
 No fundo, como o vinho turvo
 deixa um gosto amargo na boca.
 Pergunto onde está a transparência do vidro
 a pureza do líquido inicial
 a energia de quem procura esvaziar a garrafa
 e a resposta são estes cacos que nos cortam as mãos
 a mesa da alma suja de restos
 palavras espalhadas num cansaço de sentidos.
Volto,então, à primeira hipótese: O amor.
 Mas sem o gastar de uma vez
esperando que o tempo encha o copo até cima
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja  através dele, o teu rosto inteiro.

[Nuno Júdice]

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Poema de Amor para Uso Tópico


[Pintura a óleo sobre tela, Conceição Adão]

 Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes.
Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste.
 Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço:
 num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

[Nuno Júdice]

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Elegia com uma variação romântica

As mulheres loucas arrumam os quartos
 Fazem as camas desfeitas
 empilham camisas e calças
abotoam os cintos do infinito
 prendem os laços da sombra.
 Com os seus olhos cegos
 Enfiam agulhas no buraco da vida
 cosem as feridas do amor que não tiveram
 cantam devagar a canção da idade fria.
 Dispo essas mulheres no meu poema
 espalho as suas roupas pelas cadeiras
do quarto, abro a cama onde as deito
 rasgo os pontos que acabaram de coser.
 O seu sexo - seco pelos ventos
 de uma inquietação nocturna
-humedece-me os dedos.
 Desfolho os dias de março
enquanto desfloro os seus lábios.
 Por vezes, as mulheres loucas
 abrem a porta da varanda
respiram o perfume
 das trepadeiras brancas da primavera
 desmaiam com o sol.

[Nuno Júdice]



Imagem: Marc Chagall

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Gosto das mulheres que envelhecem

Gosto das mulheres que envelhecem
com a pressa das suas rugas
 os cabelos caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza dos reposteiros.
 Essas mulheres sentam-se nos cantos das salas
 olham para fora, para o átrio que não vejo de onde estou
embora adivinhe aí a presença de outras mulheres
 sentadas em bancos de madeira folheando revistas baratas.
As mulheres que envelhecem sentem 
que as olho,  que as admiro
 os seus gestos lentos que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
 que o dia corra nesta sala sem luz, evitam sair para a rua
 e dizem baixo, por vezes essa elegia, que só os seus lábios podem cantar.

[Nuno Júdice]



Pintura  de Eva Soares

terça-feira, 13 de março de 2012

Poema de Amor para Uso Tópico

 Quero-te
 como se fosses
a presa indiferente
 a mais obscura das amantes.
 Quero o teu rosto
de brancos cansaços
 as tuas mãos que hesitam
 cada uma das palavras
que sem querer me deste.
 Quero que me lembres
 e esqueças
 como eu te lembro e esqueço:
 num fundo a preto e branco
 despida como a neve matinal
 se despe da noite, fria, luminosa…
voz incerta de rosa.

[Nuno Júdice]

sábado, 16 de julho de 2011

Um Rosto

Apenas uma coisa inteiramente transparente:
o céu e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda através de pálpebras
 semicerradas, pestanas húmidas da geada matinal
 uma névoa de palavras murmuradas num silêncio de hesitações.
Há quanto tempo, tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos, limpo os papéis
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim
 fotografias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições
 e sinto eu próprio, que uma parte da minha vida
 se apaga com esses restos.

[Nuno Júdice]

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Nunca são as coisas mais simples


Nunca são as coisas mais simples
que aparecem quando as esperamos.
 O que é mais simples, como o amor
ou o mais evidente dos sorrisos
não se encontra no curso previsível da vida.
 Porém, se nos distraímos do calendário
 ou se o acaso dos passos nos empurrou
 para fora do caminho habitual
então as coisas são outras.
Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar, ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios.

[Nuno Júdice]