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segunda-feira, 7 de março de 2011

Novo epitáfio para uma velha donzela

Novo epitáfio para uma velha donzela

Não conheceu do amor as vãs complicações
Nem o prazer e as suas decepções.
Por isso é que os fiéis das sensações
Tiveram sua vida por frustrada.
Viveu de leve, humilde e afável, encerrada
No mistério sem mito em que morreu.
Da sua vida mais intensa, nada
Chegou ao mundo, que não era seu.

Sobre esta laje fria
Por memória
Dessa ignorada história
Inscreveu esta coisa fugidia
Aquele de quem foi secretamente amada.

[José Régio]

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

SONETO DE AMOR

Não me peças palavras, nem baladas
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio
Deixa cair as pálpebras pesadas
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua...unidos
Nós trocaremos beijos e gemidos
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois.. abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus, não digas nada...
Deixa a vida exprimir-se sem disfarce!

[José Régio]

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Poema do Silêncio

Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais, ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, manietado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem e meus lábios cerrarão como dois muros
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

[José Régio]

domingo, 26 de setembro de 2010

Testamento do Poeta

Testamento do Poeta

Todo esse vosso esforço é vão, amigos!
Não sou dos que se aceita... a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos,  hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos
E ao meu próprio Deus nego e o ar me foge.

Para reaver porém, todo o Universo.
E amar! E crer! E achar meus mil sentidos!....
Basta-me o gesto de contar um verso.

[José Régio]

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Cântico Negro



Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

[José Régio]

quinta-feira, 20 de março de 2008

Quase alegre..quase


(Óleo de José Bardasano Baos)
Quase Alegre…quase

Quase alegre quase
Quase triste quase
Não sei onde , algures
Em qualquer taberna
Qualquer simples terna
Banal concertina
Mói teimosamente
Sempre a mesma frase

Recomeça, insiste
Alegre ou triste..
Insiste!
Nunca mais termina

Pobre e cristalina
Popular, vulgar
Nada tem a frase de particular
Mas lançada a branda brisa vespertina
Que ma traz distante
Quase alegre quase
Quase triste quase
Não sei porque algures essa concertina
Resignadamente mói a mesma frase

Como uma saudade
Que nem é de nada
Mas é bem saudade
Seja do que for
Como uma chuvinha
Plácida obstinada
Que miudinha invada
Tudo de em redor

Renitente frase
Pobre e cristalina
Que na sombra algures
Qualquer concertina
Resignadamente
Diabólicamente
Mói e mói e mói
Quase alegre quase
Quase triste quase….

Recomeça, insiste!
Alegre ou triste..
Insiste!
Nunca mais termina…

[José Régio]