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quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Vida é Tempo

Com alma, ideias, tempo, luta
Componho um homem, sou sujeito:
Penso-me livre numa gruta
Como pretérito imperfeito.

De era se faz o meu futuro
Será o meu passado
Como da era, se faz o muro
Mais que da pedra levantado.

Se horas a nada levam tudo
Nada nasceu, tudo é que é
Haja ou não haja Sartre e o mudo
Deus Tudo-nada havido em fé.

Que ele é Deus mesmo no absoluto
Ser contestado, tão assente
Que se faz Deus na voz que escuto,
Mesmo que o negue e me desmente.

[Vitorino Nemésio]

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Que bem sabe o Amor constante

Até no carro te canto,
Fala a fala, seio a seio
Espantado de um encanto
Que mais parece receio

De te perder à partida
Pra te ganhar à chegada
Pois tu és a minha vida
Na ida e volta arriscada.

Vai o Godinho ao volante
Com seu ar de conde antigo
Que bem sabe o amor constante
Que me aparelha contigo.

Poupado na gasolina
Discreto na confidência
Navegador à bolina
Dos rumos da nossa ausência.

Leva-me à Embaixada, ao almoço:
Travou, mas não sei que tenho:
Um resto de ardor de moço
Contigo no meu canhenho.

[Vitorino Nemésio]

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A Concha (Vitorino Nemésio)



A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.


Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.


E telhados de vidro e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.


A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

[Vitorino Nemésio]