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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Espírito que passas

Espírito que passas, quando o vento
adormece no mar e surge a Lua
Filho esquivo da noite que flutua
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo, triste e lento
Que voga e subtilmente se insinua
Sobre o meu coração, que tumultua
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva
Buscando, entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome
A febre de Ideal, que me consome
Tu só, Génio da Noite…  e mais ninguém!

[Antero de Quental]

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

À Virgem Santíssima

À Virgem Santíssima

Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há, na natureza...

Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!

[Antero de Quental]

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O PALÁCIO DA VENTURA


 Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor
Silêncio e escuridão e nada mais! 

 [Antero de Quental]