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sábado, 2 de junho de 2012

Meditação Sobre os Poderes

 Rubricavam os decretos, as folhas tristes
sobre a mesa dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas
e rodeavam-se de pequenos corvos
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas
murmurando forjadas confidências
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez
de tudo quanto julgavam ser grande
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos.
 Vinha a morte e mostrava-lhes
 como tudo é fugaz quando
humanamente, se está de passagem
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar sobre a miséria
dos seus títulos afundados na terra lamacenta.

[José Jorge Letria]

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Um Pouco Mais de Nós

 Podes dar uma centelha de lua
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço
podes dar em suma, com emoção
tudo aquilo que, em silêncio
te segreda o coração
podes dar a rima sem rima
de uma música só tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua
podes juntar o diamante da dádiva
ao húmus de uma crença forte e antiga
sob a forma de poema ou de cantiga
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relógio da vida sem atraso
e sendo tudo isso serás ainda mais
anónimo, pleno e livre
nau sempre aparelhada para deixar o cais
porque o que conta, vendo bem
é dar sempre um pouco mais
sem factura, sem fama, sem horário
que a máxima recompensa de quem dá
é o júbilo de um gesto voluntário.

E, afinal, tudo isso quanto vale ?
Vale o nada que é tudo
sempre que damos de nós
o que, sendo acto amor, ganha voz
e se torna eterno por ser único e total.

[José Jorge Letria]

segunda-feira, 26 de março de 2012

O Cerimonial das Mãos

Mãe
onde foi que deixaste a outra metade
a que anunciava o sol na turvação das noites
a que iluminava a sombra no cerimonial das mãos?
Em que côncavo de rochas buscava abrigo
essa outra metade que eu via projectada
para fora de mim como um sonho
 evadindo-se do círculo de medos
 em que a fúria se jogava?

Eu era gémeo de todos os assombros
e os meus segredos era com essa outra metade
que os partilhava à revelia das bocas
que em surdina me traçavam o destino.
Quanto de mim se perdia nessa metade
que me furtava o riso e me deixava a culpa
que me feria o ventre e me fustigava a pele?
Quanto de mim me flagelava
sem que eu lhe conhecesse morada ou nome?

Mãe
 eu pedia uma trégua ao vento
e um punhal à chuva e com ambos
 queria separar de mim a metade incandescente
que à beira dos meus gestos
ganhava altura de nuvem e fulgor de estrela.

Mãe
 eu vejo-me outro nesta cama
que guarda os instrumentos
 liquefeitos da insónia
e sei que não sou eu quem lá está
que não sou eu que lá quero estar.

[José Jorge Letria]

quinta-feira, 15 de março de 2012

Ode ao Gato

 Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e  sobre o desconsolo dos escombros
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

[José Jorge Letria]

sexta-feira, 2 de março de 2012

Quando Eu For Pequeno

 Quando eu for pequeno, mãe
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe
nenhum de nós falará da morte
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena
lenço branco na mão com as iniciais bordadas
anunciando que vai voltar
 porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

[José Jorge Letria]