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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Silêncio

 Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças
as pequenas mentiras e as grandes
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

[Octavio Paz]

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Escrito com Tinta Verde (Octavio Paz)

Escrito com Tinta Verde

A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde gorjeiam letras,
palavras que são árvores,
frases de verdes constelações.

Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de neve,
como a hera à estátua,
como a tinta a esta página.

Braços, cintura, colo, seios,
fronte pura como o mar,
nuca de bosque no outono,
dentes que mordem um talo de grama.

Teu corpo se  constela de signos verdes,
renovos num corpo de árvore.
Não te importe tanta miúda cicatriz luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.

[Octavio Paz]