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quinta-feira, 7 de junho de 2012

“…entre nós e as palavras, o nosso dever falar”

 Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras intensas, que esperam por nós
e outras frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição.

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamante palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

[Mário Cesariny]

domingo, 25 de março de 2012

Faz-se Luz

Faz-se luz
pelo processo de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz
 mas no próprio seio dela
intensamente amantes, loucamente amadas
e espalham pelo chão
 braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico
 nos olhos do homem

Por outro lado
 a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos
 e na boca

[Mário Cesariny]

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Faz-me o favor...

Mário Cesariny(óleo sobre papel)”O surrealismo, 1959”

Faz-me o favor
de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor , muito melhor!
Do que tu. Não digas nada.
Sê alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

[Mário Cesariny]

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Ao longo da muralha

Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens, palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis à boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

[Mário Cesariny]

domingo, 17 de abril de 2011

Eu, Sempre

Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto
Sou um romano da decadência total
Aquela do século IV depois de Cristo
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.

[Mário Cesariny]

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Pastelaria

Foto :Agostinho Russo


Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
(ele há tanta maneira de compor uma estante)
Afinal o que importa é não ter medo:
Fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz?
E amanhã há bola antes de haver cinema
madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!
rir de tudo no riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

[Mário Cesariny]

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Homenagem a Cesário Verde

Homenagem a Cesário Verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei, comeram-se sardinhas,
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um, o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios… ainda há poetas cá no país!

[Mário Cesariny]