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terça-feira, 22 de maio de 2012

Fado

Dizem os ventos
 que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses:
 as ondas já engoliram a praia mais pequena
 e entornaram algas nos vasos da varanda.
E na cidade, conta-se que as praças
 açoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.

A lareira crepita lentamente.
 O pão ainda está morno à tua mesa.
 Mas a água já ferveu três vezes para o caldo.
 E em casa a luz fraqueja, não tarda que se apague.
 E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama

 e eu estou assustada.
 A lua está apenas por metade, a terra treme.
 E eu tremo, com medo que não voltes.

[Maria do Rosário Pedreira]

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares

Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares
 E dos seus nomes, dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E  sobre a cómoda, num espelho mais antigo
a tarde reflectia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós
mas a ele regressávamos sempre com a pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida, como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.

[Maria do Rosário Pedreira]

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Este foi o nosso último abraço


Este foi o nosso último abraço.
E quando, daqui a nada
deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente
os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo
que hoje não daremos.
E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que afinal
o que tive da vida
foi mais, muito mais
do que mereci.

[Maria do Rosário Pedreira]

terça-feira, 28 de junho de 2011

Não partas já

Não partas já.
Fica até onde a noite
 se dobra
para o lado da cama
 e o silêncio recorta
as margens do tempo.
É aí que os livros
começam devagar
 e as cores nos cegam
e as mãos fazem
 de norte na viagem.
Parte apenas
quando a manhã se ferir
 nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz
 e um feixe de poeiras
rasgar as janelas
 como uma ave desabrida.
Alguém murmurará
então o teu nome
vagamente
 como a gastar os dedos
 na derradeira página.
E então ,sim ,parte
 para que outra história
 se invente mais tarde
quando os pássaros
 gritarem à primeira lua
 e os gatos se deitarem
 sobre o muro, de olhos acesos
fingindo que perguntam.

[Maria do Rosário Pedreira]

terça-feira, 22 de março de 2011

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória.
Estou divorciada dos outros pelo tempo
destas entrelinhas longe de casa
tenho sonhos que não conto a ninguém
viro devagar a primeira página:
em fevereiro, eles ainda faziam amor à sexta-feira.
De manhã, ela torrava pão e espremia laranjas numa cozinha fria.
Havia mais toalhas para lavar ao domingo
cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal
dentro do carro antes de se despedirem.
Às vezes, repartiam sofregamente a infância, postais antigos, o silêncio
nada aconteceu entretanto.
Regresso, pois, à primeira linha, à verdade
que remexe entre as minhas mãos.
Talvez os olhos estivessem apenas desatentos sobre o livro
talvez as histórias se repitam mesmo
como as tardes passadas no terraço longe de casa.
Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.



[Maria do Rosário Pedreira]

domingo, 13 de março de 2011

Vieste como um barco carregado de vento

Vieste como um barco carregado de vento
Abrindo feridas de espuma pelas ondas.
Chegaste tão depressa que nem pude aguardar-te
ou prevenir-me e só ficaste o tempo de iludires
a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar
como foi que partiste, se partiste
que dentro de mim se acanham as certezas
e tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado
ao mar o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar
exausto de me ver entre mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo
o vaivém dos barcos.

 Dizem-me os seus passos que vale a pena esperar
 porque as ondas acabam sempre por quebrar-se junto das margens.
 Mas eu sei que o meu mar está cercado de litorais
que é tarde para quase tudo.Por isso, vou para casa
 e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.


[Maria do Rosário Pedreira]

domingo, 23 de janeiro de 2011

São horas de voltar


São horas de voltar.
Tu já não vens e a espera
gastou a luz de mais um dia.
Agora, quem passar trará um corpo incerto
dentro do nevoeiro, mas terá outro nome
e outro perfume.
Eu volto à casa onde contigo
se demorou o verão e arrumo os livros
escondo as cartas, viro os retratos para a mesa.
Sei que o tempo se magoou de nós
sei que não voltas e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente.
Outras virão em Março
apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.

[Maria do Rosário Pedreira]



quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O meu amor não cabe num poema…

O meu amor não cabe num poema…

O meu amor não cabe num poema – há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras,e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer ,é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos, a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele,vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome , é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.

Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta.
Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

[Maria do Rosário Pedreira]

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Não sei porque razão o mundo se inquieta

YAMASHITA Masao

Não sei porque razão o mundo se inquieta
quando estamos sozinhos.
Talvez não saiba que esgotámos os olhos
 no rigor dos espelhos e que por isso,
não somos capazes de traçar um caminho
 senão para o evitarmos.

Na verdade, se cai a noite,
 estiolam-se as aventuras entre nós
o teu silêncio respira longamente, às vezes
paira sobre as dunas do meu corpo a conspirar,
como um tear de nuvens a fiar tempestades
ou um vento salgado a prometer naufrágios,
mas nunca converte o assomo numa história.

Não sei porque se aflige tanto o mundo
se ficamos sozinhos.
Talvez ignore que nós não somos mar
 de nenhuma praia, que escolhemos
 poupar às falésias as cicatrizes
das ondas e tudo para não aprendermos
o verdadeiro nome das feridas.

[Maria do Rosário Pedreira]

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Mãe, eu quero ir-me embora



Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram a crescer.
 O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

 Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
 cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
 só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
 que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
 os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
 deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
 e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

 Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
 caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
 Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
 não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
 as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
 embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
 de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
 uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.


[Maria do Rosário Pedreira]