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domingo, 18 de março de 2012

o suporte da música

 
o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher
 a pauta dos seus gestos tocando-se
ou dos seus olhares encontrando-se
 ou das suas vogais adivinhando-se abertas e recíprocas
ou dos seus obscuros sinais de entendimento
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência
dos seus ouvidos e do olfacto
 de tudo o que se ramifica entre os timbres os perfumes
 mas é também um ritmo interior
 uma parcela do cosmos
e eles sabem-no, perpassando por uns frágeis momentos
 concentrado num ponto minúsculo  intensamente luminoso
que a música, desvendando-se, desdobra
entre conhecimento e cúmplice harmonia.

[Vasco Graça Moura]

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

soneto do amor e da morte

 quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti.
 quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão
põe os olhos nos meus se puder ser
se ainda neles a luz esmorecer
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu ainda a bater
quando eu morrer segura a minha mão.

[Vasco Graça Moura]



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

princípio do prazer

à sua volta os pombos cor de lava
nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto

no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio

trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-fátuo a coroar um mastro

seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava

e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.

[Vasco Graça Moura]

sexta-feira, 24 de junho de 2011

o que vamos fazer amanhã (lamento por diotima)

o que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?

amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã

que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem

num relvado talvez me fusilem
o teu corpo talvez seja meu
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?

[Vasco Graça Moura]

domingo, 20 de fevereiro de 2011

insinceridade

insinceridade

quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero
sem saber bem o que busco.

[Vasco Graça Moura]

sábado, 5 de fevereiro de 2011

blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase
era um tempo de humores bem sacudidos
depressões sincopadas, bem graves, minha querida
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir Deus e música de jazz
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não
eu nunca tive queda para kamikaze
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa
o que eu nunca pedi, ah não, manda calar a gente
minha querida, toda a gente do bairro
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:  morrer ou não morrer, darling, ah sim.

[Vasco Graça Moura]