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sábado, 2 de junho de 2012

Namorados do Mirante

Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
A Remontavam às origens — a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie — tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio...

[Vinicius de Moraes]

terça-feira, 20 de março de 2012

Ternura

 Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
 seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos
 eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente

E posso te dizer que o grande afecto que te deixo
Não trai o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
 encontrem sem fatalidade, o olhar extático da aurora.

[Vinícius de Moraes]

terça-feira, 6 de março de 2012

Soneto de Contricção

 Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

[Vinicius de Moraes]

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O Girassol

Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel.

O girassol é o carrossel das abelhas.

Pretas e vermelhas
Ali ficam elas
Brincando, fedelhas
Nas pétalas amarelas.

Vamos brincar de carrossel, pessoal?

"Roda, roda, carrossel
Roda, roda, rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor".

 Marimbondo não pode ir que é bicho mau!
 Besouro é muito pesado!
 Borboleta tem que fingir de borboleta
 na entrada!
Dona Cigarra fica tocando seu realejo!

"Roda, roda, carrossel
Gira, gira, girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol".
E o girassol vai girando dia afora . . .

O girassol é o carrossel das abelhas.

[Vinicius de Moraes]

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Porta

Marcel Caram

A Porta

Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de sopetão
Pra passar o capitão.

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa . . .)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.

Eu sou muito inteligente!

Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu!

[Vinicius de Moraes]

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontravas se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como cortiça
E tem raízes como a fumaça.

[Vinicius de Moraes]

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

As Borboletas

As Borboletas

Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas

Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam muito de luz.

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então . . .
Oh, que escuridão!

[Vinicius de Moraes]

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Poema Enjoadinho

Poema Enjoadinho

Filhos
... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio

Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete ...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois que boa
Que morenaça
Que a esposa fica!
Resultado: filhos.

E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.

Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los ...

Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que maciez
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne

Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

[Vinicius de Moraes]

sábado, 9 de outubro de 2010

Mar

Mar

Na melancolia de teus olhos
eu sinto a noite se inclinar
e ouço as cantigas antigas
do mar.

Nos frios espaços de teus braços
eu me perco em carícias de água
e durmo escutando em vão
o silêncio.

E anseio em teu misterioso seio,
na atonia das ondas redondas,
náufrago entregue ao fluxo forte
da morte.

[Vinicius de Moraes]

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Soneto de Aniversário


         Soneto de Aniversário

        Passem-se dias, horas, meses, anos
        Amadureçam as ilusões da vida
        Prossiga ela sempre dividida
        Entre compensações e desenganos.

        Faça-se a carne mais envilecida
        Diminuam os bens, cresçam os danos
        Vença o ideal de andar caminhos planos
        Melhor que levar tudo de vencida.

        Queira-se antes ventura que aventura
        À medida que a têmpora embranquece
        E fica tenra a fibra que era dura.

        E eu te direi: amiga minha, esquece...
        Que grande é este amor meu de criatura
        Que vê envelhecer e não envelhece.

        [Vinicius de Moraes]

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Vinicius de Moraes (19 de Outubro de 1913 - 9 de Julho de 1980)


Epitáfio

Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu luz ao dia
E apascentou a tarde

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que

Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.

[Vinicius de Moraes]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Eu Sei e Você Sabe


Eu sei e você sabe

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim,
Que nada nesse mundo levará você de mim.
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste.
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.

Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

[Vinicius de Moraes]

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Poema de Natal (Vinicius de Moraes - Youtube)




Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos.
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos.
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai 
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte 
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem, da morte apenas
Nascemos imensamente.

[Vinicius de Moraes]