Mostrar mensagens com a etiqueta Sophia de Mello Breyner e Andresen. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sophia de Mello Breyner e Andresen. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 22 de maio de 2012

Casa branca

Casa branca em frente ao mar enorme
Com o teu jardim de areia e flocos marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

A ti eu voltarei após o incerto calor
 de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.



[Sophia de Mello Breyner Andresen]

quarta-feira, 9 de maio de 2012

M A R

Mar,  metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia
Que há no vasto clamor da maré cheia
Que nunca nenhum bem me satisfez.

E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez
Que após cada queda caminho para a vida
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.

E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo
É só porque as tuas ondas são puras

[Sophia de Mello Breyner Andresen ]  

terça-feira, 17 de abril de 2012

De um Amor Morto

 De um amor morto fica
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto
 não fica nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo, agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto
 não deixa em nós
o seu retrato de infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

quarta-feira, 21 de março de 2012

Esta Gente

 Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

quinta-feira, 1 de março de 2012

Terror de Te Amar

Terror de te amar
 num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]