Mostrar mensagens com a etiqueta Manoel Bandeira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manoel Bandeira. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A morte absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne
A exangue máscara de cera
Cercada de flores
Que apodrecerão felizes! num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
Sem deixar sequer esse nome.

[Manoel Bandeira]

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Profundamente...


Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

 Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci.

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
…Profundamente.

[Manuel  Bandeira]

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Preparação para a Morte

A vida é um milagre.
Cada flor com sua forma, sua cor, seu aroma
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres. 


[Manuel Bandeira]

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Minha Grande Ternura

Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos
Pelas pequeninas aranhas.

Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.

Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.

Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.

Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.

[Manuel Bandeira]

domingo, 20 de março de 2011

A morte absoluta


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne
A exangue máscara de cera
Cercada de flores
Que apodrecerão felizes num dia.
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: Quem foi?

Morrer mais completamente ainda
Sem deixar sequer esse nome.

[Manuel Bandeira]

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Quando estás vestida

Pintura a óleo de Carla Chaves


 
Quando estás vestida

Quando estás vestida
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

Assim, quando é dia
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua
E nua na noite
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite

[Manuel Bandeira]

terça-feira, 19 de outubro de 2010

BACANAL

Afrodite, de Pierre Louÿs


BACANAL

Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada.
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vénus!

Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
Vinhos!... o vinho que é meu fraco!...
Evoé Baco!

O alfanje rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos.
Evoé Vénus!

[Manuel Bandeira]

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Poética




Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

[Manuel Bandeira]

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Desencanto


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

[Manuel Bandeira]