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quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Tempo Seca o Amor

 O tempo seca a beleza
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve
desúnido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco
vestígio do musgo humano
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque
não na terra, Amor-Perfeito
num tempo depois das almas.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 3 de abril de 2012

Amém

Hoje acabou-se-me a palavra
e nenhuma lágrima vem.
Ai, se a vida se me acabara
também!

A profusão do mundo, imensa
tem tudo, tudo  e nada tem.
Onde repousar a cabeça?
No além?

Fala-se com os homens
 com os santos, consigo, com Deus. . .
E ninguém entende
 o que se está contando
e a quem. . .

Mas terra e sol, luas e estrelas
giram de tal maneira bem
que a alma desanima de queixas.
Amém.

[Cecília Meireles]

sábado, 17 de março de 2012

Pergunto-te

 Pergunto-te
 onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu.
Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída.

Vão-se as minhas perguntas
 aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto?
 Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias?
 E de cada pergunta minha
 vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos
 de quem pensa.

Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada
do silêncio da coisa irrespondida.

[Cecília Meireles]

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Lei

O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar mesmo
 a onda amarga que leva os mortos.
O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.
O que é preciso é que os olhos
 sejam cristal sem névoa e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha
e ouça a notícia do tempo
entre os assombros da vida e da morte
estenda suas diáfanas asas, isenta por igual.
de desejo e de desespero.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A Velhice Pede Desculpas

Tão velho estou como árvore no inverno
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas
acostumado apenas ao som das músicas
à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo
com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo
com suas sombras, porém suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória
são na verdade só destroços, destroços.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Recado aos Amigos Distantes


Meus companheiros amados
não vos espero nem chamo
porque vou para outros lados
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso
vou cortando meus atalhos
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto
minha rebelde maneira
Para libertar-me tanto
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça
ides na minha lembrança
ides na minha cabeça
valeis a minha Esperança.

[Cecília Meireles]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Atitude


Minha esperança perdeu seu nome...
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

[Cecília Meireles]

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Máquina breve


O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
meteoro da noite, humilde
dos horizontes da relva
o pequeno vaga-lume
queimada a sua lanterna
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.

[Cecília Meireles]