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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

CANÇÃO À AUSENTE

Para te amar ensaiei os meus lábios…
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos…
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei os meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio…
Para te ouvir ensaiei os meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando…
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando…
E nunca mais vieste!

[Pedro Homem de Mello]

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

POEMA

Noite. Fundura. A treva
É mais doce talvez...
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.

Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.

A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.

Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido...

[Pedro Homem de Mello]

domingo, 12 de junho de 2011

Encontro

Felicidade, agarrei-te
Como um cão, pelo cachaço!
E  contigo, em mar de azeite
Afoguei-me, passo a passo...
Dei à minha alma a preguiça
Que o meu corpo não tivera.
E foi assim, que submissa
Vi chegar a Primavera...
Quem a colher que a arrecade
(Há, nela, um segredo lento...)
Ó frágil felicidade!
Palavra que leva o vento
E  depois, como se a ideia
De  nos dedos, a ter tido
Bastasse por fim, larguei-a
Sem ficar arrependido...

[Pedro Homem de Mello]

domingo, 15 de maio de 2011

APELO

Quem quer que sejas, vem a mim apenas
De noite, quando as rosas adormecem!

Vem quando a treva alonga as mãos morenas
E quando as árvores de voar se esquecem.

Vem a mim quando, até nos pesadelos,
O amor tenha a beleza da mentira.

Vem quando o vento acorda os meus cabelos
Como em folhagem que, ávida, respira…

Vem como a sombra, quando a estrada é nua
Nem risco de asa, vem, serenamente!

Como as estrelas, quando não há Lua
Ou como os peixes, quando não há gente…

[Pedro Homem de Mello]

sexta-feira, 22 de abril de 2011

NÃO CHOREIS OS MORTOS

“Senhor da Pedra fim da tarde” Autor: António Amen

Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando à tarde o Sol, entre brasidos
Agonizar… guardai longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos
Da multidão sem fim dos que são vivos
Dos tristes que não podem esquecer.

E ao meditar então, na paz da Morte
Vereis talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

[Pedro Homem de Mello]

sábado, 18 de dezembro de 2010

O Bailador de Fandango

O Bailador de Fandango

Sua canção fora a Gota.
Sua dança fora o Vira.
Chamavam-lhe "o fandangueiro".
Mas seu nome verdadeiro
Quando bailava, bailava...
Não era nome de cravo
Nem era nome de rosa;
Era o de flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...
E havia um cristal na vista
E havia um cristal no ar
Quando aquele fandanguista
Se demorava a bailar!
E havia um cristal no vento
E havia um cristal no mar.
E havia no pensamento
Uma flor por esfolhar...
Fandangueiro! Fandangueiro?
(Nem sei que nome lhe dar...)

Tinha seus braços erguidos
Não sei que ignotos sentidos...
- Jeitos de asa pelo ar...
Quando bailava, bailava,
Não era folha de cravo
Nem era folha de rosa.
Era uma flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...
Que se esfolhava, esfolhava...

Domingos Enes Pereira,
Do lugar de Montedor,
(O bailador de Fandango
Era aquele bailador!)
Vinham moças de Areosa
Para com ele bailar...
E vinham moças de Afife
Para com ele bailar.
Então as sombras dos corpos,
Como chamas traiçoeiras,
Entrelaçavam-se e a dança
Cobria o chão de fogueiras...

E as sombras formavam sebe...
O movimento as florira...
O sonho, a noite, o desejo...
Ai! belezas da mentira!

E as sombras entrelaçavam-se...
Os corpos, ninguém sabia
Se eram corpos, se eram sombras,
Se era o amor que se escondia...

[Pedro Homem de Mello]