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sábado, 14 de maio de 2011

Barcarola


Barcarola

Deseja a noite, primeiro
Malfazeja, tortuosa.
Este é um canto marinheiro:
Faz do meu pranto um veleiro
E do veleiro uma rosa.

Pela barra de Viana
Foge ao Penedo Ladrão
Uma escuna americana.
A noite, com forma humana
Traz ondas que nunca vão.

Areia do Cabedelo:
Naufraga a escuna na duna!
Maré cheia em teu cabelo!
É um pássaro amarelo
Cada vela que se enfuna.

Dissolve a noite no mar:
A lua é toda molhada.
Abre-te, voz, devagar...
A escuna é espuma, é luar...
Madrugada! Madrugada!

[António Manuel Couto Viana]

terça-feira, 5 de abril de 2011

Lucidez

Lucidez

Em cada instante, a poesia
Morre em mim.
E a mão certeira que a escrevia
Escreve assim:

Qualquer poesia alheia
Não pode ser comparada
Com esta minha, tão cheia
De nada.

Quem a lê logo conhece
Que é
Aquela que não merece
Nem nota de rodapé.

E se a estudou, sabe agora
Que perdeu a inspiração.
E cora
De lhe haver dado atenção.

Quem sou de mim foi-se embora:
Pára, de vez, coração!
(Mas dilacera-me a espora:
– Ainda não!)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A galinha espertinha


A galinha espertinha

Era uma vez uma galinha
Que entrou pela cozinha
Onde havia uma panela
Mas sem nada dentro dela.
Ouviu, então
A voz fraquinha do patrão
Dizendo à cozinheira:
- "Não se arranja
Por aí uma canja?
Estou cheio de fome."
Pôs a galinha um ovo e disse: - Come."
E fugiu sem demora,
Antes que lhe chegasse a derradeira hora.


[António Manuel Couto Viana]