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sábado, 2 de junho de 2012

Fado Soneto

Cada manhã era a véspera da surpresa
de silêncio em silêncio anunciada.
De encanto se tecia e de tristeza
essa noite cada vez mais desejada.

Do teu corpo prometido ainda o cheiro
do teu ventre revelado ainda a chama.
A saudade do que foi um dia inteiro
na moldura do que foi a nossa cama.

Cada minuto um punhal impaciente
cada gesto uma carícia antecipada
cada suspiro um excesso de ar eloquente.

E a surpresa da surpresa desejada:
o sabor desse teu corpo adolescente
de mulher em cada beijo renovada.

[Fernando Tavares Rodrigues]

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Veneno de Sol

A tua frescura  Amor
Encontrou-me ao fim da tarde
E o meu desejo, esse calor em ti
Não arde

Estamos sós, nada sucede
Nem nos amámos sequer
Quando me beijas com sede
Eu abraço-te
 sem querer

E por mais que te queira, não te tenho
E  ter-te assim demais, Amor
Não quero

[Fernando Tavares Rodrigues]

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Rendas Pretas

“Indecisão” Retrato a óleo – Regina Oliveira

O que sinto por ti
São rendas pretas..
Recordações vagas, indiscretas
De um corpo que conheci.

O que sinto por ti
São rendas pretas..
Volúpias de cetim, sedas secretas
Que tu despias para mim…

Pedaços de fantasia,
Que vestias para estar nua..
Restos de noite que a lua
Na tua pele descobria.

O que sinto por ti
São rendas pretas
Essas renda incompletas
Que nos dedos descobri..
Quando ao ver-te assim despida..
Me dei…e te possuí.

Dessas nocturnas intrigas
Que me calaram de espanto
Das meias finas, das ligas
Das rendas que te ofereci

Lembro ainda o doce encanto
Das rendas pretas em ti
Do corpo que me ofereceste
Quando entre as rendas te deste..
E entre rendas me rendi..

Tão tranparentes macias
As rendas que tu vestias…
Hoje tão tristes …sem ti!

[Fernando Tavares Rodrigues]


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Jantar

Jantar sózinho
 comer
O resto da minha sede.
Como se alguém repartisse
A fome de apetecer
Outro corpo que se bebe
E que depois nos fugisse....

[Fernando Tavares Rodrigues]

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Canção de Amor

Canção de Amor

Amo-te muito
Como se já te amasse assim há muito.
Amo-te tanto
Como se fosse apenas por enquanto.
Amo-te como quem partiu
Sabendo, ao partir, que já chegou.
Amo-te como amo aquilo que te dou.

Amo-te como um vinho antigo
Um mosto doce.
Amo-te como a Primavera
Que te trouxe.
Quero-te como se te amasse por encanto.
Só sei amar-te assim
Como se fosse a mim.

E quero amar-te
E quero dar-me sempre a ti
constantemente.
A um tempo só:
O futuro e o passado no presente.
E a ternura, esse fogo
Que acendemos mão na mão
Seja sempre amor
Sem deixar de ser paixão

   [Fernando Tavares Rodrigues]

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

C O N F I S S Ã O

Confissão

Entre números
e cifrões transfigurado
Como se também fosse o que fingia.
E o amor por amar que me doía
Neste corpo de amor desocupado.

Assim vestia, dia a dia, o meu ofício
Dessa cor que não serve os namorados:
A gravata, o colarinho de silício
E os gestos tão iguais, tão estudados

Para ganhar um pão que nunca quis
Virei os meus sonhos do avesso
Em vez de continuar a ser feliz.

E hoje só sei que o não mereço,
Que a imagem que criei já não condiz
Com aquele que, mesmo assim, ainda pareço.

[Fernando Tavares Rodrigues]

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

E L E G I A

Elegia

Só tu que
não existes
Me dás calma.
Porque não tens alma,
Porque não consistes.

Mesmo quando voltas
- tu que não estiveste-
não me trazes nada;
nem mesmo o calor
da chama apagada.

Porque não te tenho
E vivo contigo,
Porque não te quero
Nem sou teu amigo
Deixa-me o teu corpo:
Ânfora vazia,
Vinho de ciúme.
Deixa-me o que fui
- o meu eco em ti...

[Fernando Tavares Rodrigues]