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sábado, 10 de março de 2012

V I D A

Vida:
sensualíssima mulher
 de carnes maravilhosas
cujos passos são horas
cadenciadas
rítmicas
fatais.
A cada movimento do teu corpo
dispersam asas de desejos
que me roçam a pele
e encrespam os nervos
 na alucinação do «nunca mais».
Vou seguindo teus passos
lutando e sofrendo
cantando e chorando
e ficam abertos meus braços:
nunca te alcanço!
Meu suplício de Tântalo.
Envelheço...
E tu, Vida, cada vez mais viçosa
na oscilação nervosa
das tuas ancas fecundas e sempre virgens!
À punhalada dilacero a folhagem
e abro clareiras na floresta milenária
 do meu caminho.
Humildemente se rasga e avilta
no roçar dos espinhos
a minha carne dorida.
E quando julgo chegada a hora
meu abraço de posse
 fica escancarado no ar!
Olímpica
firme
gloriosa
tu passas e não te alcanço, Vida.
Caio suado de borco
no lodo...
O vento da noite
 badala nos ramos
sarcasmos canalhas.
Não avisto a vida!
Tenho medo, grito.
Creio em Deus
 e nos fantásticos ecos
do meu grito
que vêm de longe e de perto
do sul e do norte
que me envolvem
e esmagam:
maldita selva, maldita selva
antes o deserto, a sede e a morte!

[Manuel da Fonseca]

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Adormecer

 Vai vida na madrugada fria.
O teu amante fica na posse
 deste momento que foi teu
amorfo e sem limites,como um anjo
a cabeça cheia de estrelas...
Fica abraçado a esta poeira
 que o teu pé levantou.
Fica inútil e hirto como um deus
desfalecendo na raiva
 de não poder seguir-te!

[Manuel da Fonseca]

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ansiedade

Quero compor um poema
onde fremente cante a vida
das florestas das águas
 e dos ventos.

Que o meu canto seja
no meio do temporal
uma chicotada de vento
que estremeça as estrelas
desfaça mitos e rasgue nevoeiros
 escancarando sóis!

[Manuel da Fonseca]

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Antes que Seja Tarde

Amigo
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas como as águas
 de um lago adormecido, acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!
Amigo
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

[Manuel da Fonseca]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Maria Campaniça

Debaixo do lenço azul
 com sua barra amarela
os lindos olhos que tem!
Mas o rosto macerado
de andar na ceifa e na monda
desde manhã ao sol-posto
mas o jeito das mãos
 torcendo o xaile nos dedos
é de mágoa e abandono...
Ai Maria Campaniça
levanta os olhos do chão
que eu quero ver nascer o sol!

[Manuel da Fonseca]