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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Os Meus Livros

Jorge Luis Borges, nasceu há 112 anos

 
Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
dir-me-ão para sempre.

[Jorge Luis Borges]


quarta-feira, 9 de março de 2011

Com lento amor

Com lento amor
olhava os dispersos tons da tarde.
A ela comprazia perder-se
na complexa melodia
Ou na curiosa vida dos versos.

Não o rubro elemental mas os cinzentos
Fiaram seu destino delicado
Feito a discriminar e exercitado
Na vacilação e nos matizes.

Sem se atrever a andar
neste perplexo labirinto
olhava lá de fora as formas
o tumulto e a carreira.

Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que habitam para lá do rogo
Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo.

[Jorge Luis Borges]