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domingo, 29 de abril de 2012

O Solitário

 Como alguém que por mares desconhecidos viajou
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.

Penetra profundamente no meu rosto um mundo
tão desabitado talvez como uma lua
mas eles não deixam um único pensamento só
e todas as suas palavras são habitadas.

As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas
na sua vasta pátria são feras
aqui sustém a respiração, por vergonha.

[Rainer Maria Rilke]

sexta-feira, 23 de março de 2012

A noite vem…

A noite vem buscar secretamente
através das dobras das cortinas
brilho de sol esquecido no teu cabelo.
Olha, nada mais quero que não seja
ter entre as minhas, as tuas mãos
 e ser tranquilo e bom todo cheio de paz.

Fazes-me crescer a alma que estilhaça
o dia-a-dia em cacos
 e assim ganha uma amplitude
 que é milagre teu:
Nos seus molhes de aurora
 vão morrer as primeiras ondas de infinidade

[Rainer Maria Rilke]

sexta-feira, 9 de março de 2012

Solidão

 
 A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram
desiludidos e tristes se separam
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...

[Rainer Maria Rilke]

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Canção de Amor

Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.

[Rainer Maria Rilke]

domingo, 7 de novembro de 2010

Recordação

Recordação

E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida,
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.           

[Rainer Maria Rilke]

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Homem que Contempla (Rilke)


O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

[Rainer Maria Rilke]