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segunda-feira, 18 de junho de 2012

No acaso da rua

 
No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.


A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata,

Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,

E a outra rapariga passa.


Que grande vantagem o recordar intransigentemente!

Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,

E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.


Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!

Ao menos escrevem-se versos.

Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,

Se calhar, ou até sem calhar,

Maravilha das celebridades!


Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...

Mas isto era a respeito de uma rapariga,

De uma rapariga loira,

Mas qual delas?

Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,

Numa outra espécie de rua;

E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade

Numa outra espécie de rua;

Por que todas as recordações são a mesma recordação,

Tudo que foi é a mesma morte,

Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?


Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.

Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?

Pode ser... A rapariga loira?

É a mesma afinal...

Tudo é o mesmo afinal ...


Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.


[Álvaro de Campos]

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

COMEÇO A CONHECER-ME. NÃO EXISTO.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram
Ou metade desse intervalo, porque também há vida …
Sou isso, enfim … 
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo. 
É um universo barato.

[Álvaro de Campos]

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Bicarbonato de Soda

David Alfaro Siqueiros (Mexican, 1896-1974) - "The Sob"

 
Bicarbonato de Soda

 Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma angústia
Uma desconsolação da epiderme da alma
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas
Perante a paisagem todas as paisagens

Sem esperança, em liberdade, sem nexo
Acidente da inconsequência da superfície das coisas
Monótono mas dorminhoco
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

[Álvaro de Campos]

sábado, 23 de abril de 2011

A LIBERDADE SIM A LIBERDADE!

A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!
A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente
A noção jurídica da alma dos outros como humana
A alegria de ter estas coisas e poder outra vez
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
E beber água como se fossem todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de criança…
Sorriso da velha bondosa…
Apertar da mão do amigo sério…
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!
Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade
Dêem-me no púcaro velho de ao pé do pote.
Da casa do campo da minha velha infância…
Eu bebia e ele chiava
Eu era fresco e ele era fresco
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?

[Álvaro de Campos]



terça-feira, 8 de março de 2011

Depus a Máscara

[Foto - Carina Mónico]

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há muitos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre criança
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

[Álvaro de Campos]


quinta-feira, 3 de março de 2011

CARTA AO JORNAL "A CAPITAL"


Lisboa, em 6 de Julho de 1915.

Ex.mo Senhor Director de A Capital.

A notícia inserta em A Capital de ontem regista uma informação imperfeita com respeito aos intuitos teatrais que tomaram alguns dos meus colegas de Orpheu, sob minha diligente orientação.
Não se trata nem de futurismo nem de representar um drama dinâmico da categoria litográfica que V. Ex.ia indica. Para esclarecer bem o assunto e visto que já se fala nele em público – direi que o drama que tencionamos apresentar se chama «Os Jornalistas», que é um estudo sintético do jornalismo português e que, como (em parte) V. Ex.ia diz, se vêem apenas os doze pés dos três jornalistas que estão em quase-cena.
Passo em branco  porque seria inútil protestar nesse lance,  sobre a atribuição de futurismo que nos pretendem lançar. Seria de mau gosto repudiar ligações com os futuristas numa hora tão deliciosamente dinâmica em que a própria Providência Divina se serve dos carros eléctricos para os seus altos ensinamentos.

De V. Ex.ia
Respeitador e criado

ÁLVARO DE CAMPOS
engenheiro e poeta sensacionalista

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Estou Cansado

Estou cansado, é claro
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto
Uma vontade de sono no corpo
Um desejo de não pensar na alma
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

[Álvaro de Campos]

sábado, 22 de janeiro de 2011

Ah, os primeiros minutos dos cafés de novas cidades!

Ah, os primeiros minutos dos cafés de novas cidades!
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega…
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens…

Os ómnibus ou os eléctricos ou os automóveis…
O novo aspecto das ruas de novas terras…
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...

As praças nitidamente quadradas e grandes
As ruas com as casas que se aproximam ao fim
As ruas transversais revelando súbitos interesses
E através disto tudo, como uma coisa que inunda
E nunca transborda o movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica…

Os portos com navios parados
Excessivamente navios parados
Com barcos pequenos ao pé, esperando…

[Álvaro de Campos]

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O sono que desce sobre mim.

O sono que desce sobre mim.

O sono que desce sobre mim.
O sono mental que desce fisicamente sobre mim
O sono universal que desce individualmente sobre mim
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir.
O sono da vontade de dormir
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões
É o sono da síntese de todas as desesperanças
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura
O abatimento tem ao menos sossego
A rendição é ao menos o fim do esforço
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...

[Álvaro de Campos]