Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Algumas Coisas

 A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo
também o silêncio daquele que fala se calará.

Quem fala destas coisas
 e de falar delas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade
saber é esquecer
 e esta é a sabedoria
 e o esquecimento.

[Manuel António Pina]

sábado, 31 de março de 2012

A Poesia Vai Acabar

 A poesia vai acabar
 os poetas vão ser colocados
 em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
enquanto os pássaros não acabarem.
Esta certeza, tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope
 atendia devagar  ao balcão
 eu perguntei:  Que fez algum
poeta por este senhor?
 E a pergunta afligiu-me
 tanto por dentro e por fora da cabeça
 que tive que voltar a ler toda a poesia
 desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver , onde o autor quer chegar? —

         [Manuel António Pina]

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O Medo

Ninguém me roubará algumas coisas
nem acerca delas saberei transigir
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam
eternamente a essa morte
como  imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada
nem de algumas palavras juntas?

[Manuel António Pina]

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Vê se há mensagens

Vê se há mensagens

no gravador de chamadas
rega as roseiras
as chaves estão
na mesa do telefone
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas,as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém
o tempo,agora
é de poucas palavras
e de ainda menos sentido.
Embora eu,pelos vistos
não tenha razão de queixa.
Senhor,permite que algo permaneça
alguma palavra ou alguma lembrança
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira
não digo a morte, nem a vida
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos
o medo e a esperança
a urze e o salgueiro
os meus heróis e os meus livros?
Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o “Adalat ou o Nitromint.”

[Manuel António Pina]

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Cuidados Intensivos

A esta hora e neste sítio
(miocárdio ventricular esquerdo)
é a abstracta vida que me assalta.
Eles não sabem
que o seu coração pulsa
ferido,no meu coração
que a minha dor alheia
vagarosamente mata
os seus sonhos,os seus sentidos
os seus dias visíveis e invisíveis
a linha dos telhados
ao longe sobre o céu.
Como saberiam
(com que palavras exteriores?)
que existem
dentro de mim
de um modo fora de mim
os parentes,os amigos
a vaga enfermeira da noite
que enquanto o meu Único coração
morre na minha cabeça
a luz do quarto se
apaga para sempre
e o silêncio se fecha
sobre os corredores?
No quarto ao lado alguém
a noite passada morreu
proválvemente eu.
Os livros,as flores
da mesa de cabeceira
conhecerão estas últimas coisas
em algum sítio da minha alma?

[Manuel António Pina]