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segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Castidade com que Abria as Coxas

 A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas
e tão estrita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

[Carlos Drummond de Andrade]

quarta-feira, 14 de março de 2012

Dois Rumos

 Mentir, eis o problema:
minto de vez em quando
ou sempre, por sistema?

Se mentir todo dia
erguerei um castelo
em alta serrania

contra toda escalada
e mais ninguém no mundo
me atira seta ervada?

Livre estarei, e dentro
de mim outra verdade
rebrilhará no centro?

Ou mentirei apenas
no varejo da vida
sem alívio de penas

sem suporte e armadura
ante o império dos grandes
frágil, frágil criatura?

Pensarei ainda nisto.
Por enquanto não sei
se me exponho ou resisto

se componho um casulo
e nele me agasalho
tornando o resto nulo

ou adiro à suposta
verdade contingente
que, de verdade, mente.

[Carlos Drummond de Andrade]

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O que se Passa na Cama

 O que se passa na cama
é segredo de quem ama.

É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando
atinge a paz de outro horto
noutro mundo: paz de morto
nirvana, sono do pénis.

Ai, cama, canção de cuna
dorme, menina, nanana
dorme a onça suçuarana
dorme a cândida vagina
dorme a última sirena
ou a penúltima... O pénis
dorme, puma
 americana fera exausta.
Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.
E silenciem os que amam
entre lençol e cortina
ainda húmidos de sémen
estes segredos de cama.

[Carlos Drummond de Andrade]


Quadro de Pino Daeni

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Confronto

Bateu Amor à porta da Loucura.
Deixa-me entrar, pediu , sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu minha paixão.

A Loucura desdenha recebê-lo
sabendo quanto Amor vive de engano
mas estarrece de surpresa ao vê-lo
de humano que era, assim tão inumano.

E  exclama: Entre correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu

enquanto me retiro, sem destino
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de amar.

[Carlos Drummond de Andrade]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Para Sempre


Por que Deus permite
que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite
é tempo sem hora
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba
veludo escondido
na pele enrugada
água pura, ar puro
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve
e passa sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora
será pequenino
feito grão de milho.

[Carlos Drummond de Andrade]

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sentimento do Mundo

        Tenho apenas duas mãos
        e o sentimento do mundo
        mas estou cheio de escravos
        minhas lembranças escorrem
        e o corpo transige
        na confluência do amor.

        Quando me levantar
        o céu estará morto e saqueado
        eu mesmo estarei morto
        morto meu desejo, morto
        o pântano sem acordes.

        Os camaradas não disseram
        que havia uma guerra
        e era necessário trazer fogo e alimento.
        Sinto-me disperso, anterior a fronteiras
        humildemente vos peço que me perdoeis.

        Quando os corpos passarem
        eu ficarei sózinho
        desafiando a recordação do sineiro
        da viúva e do micros-copista
        que habitavam a barraca
        e não foram encontrados ao amanhecer
        esse amanhecer mais que a noite.


         [Carlos Drummond de Andrade]
           31/10/1902 - 17/08/1987

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Tempo Passa? Não Passa

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade
pois só quem ama
escutou, o apelo da eternidade.

[Carlos Drummond de Andrade]

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Poesia

        Gastei uma hora pensando em um verso

        que a pena não quer escrever.

        No entanto ele está cá dentro

        inquieto, vivo.

        Ele está cá dentro

        e não quer sair.

        Mas a poesia deste momento

        inunda minha vida inteira.


        [Carlos Drummond  de Andrade]
         

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Amor e seu tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama
que se torna a mais larga e mais relvosa
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto amor: o ganho não previsto
o prémio subterrâneo e coruscante
leitura de relâmpago cifrado
que  decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço terrestre
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

[Carlos Drummond de Andrade]

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

[Carlos Drummond de Andrade]