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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Alheamento

Meu corpo estiraçado, lânguido, ao longo do leito.
O cigarro vago azulando os meus dedos.
O rádio... a música...
A tua presença que esvoaça
em torno do cigarro, do ar, da música...
Ausência! minha doce fuga!
Estranha coisa esta, a poesia
que vai entornando mágoa nas horas
como um orvalho de lágrimas, escorrendo dos vidros
duma janela
numa tarde vaga, vaga...


[Fernando Namora]

sábado, 31 de março de 2012

Terra

Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos
charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra
 o azul de outra serra
 e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os Rios?
Caminhos de pedra
 sulcados, curtos e estreitos
onde chiam carros de bois
 e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros
 e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo
 abraçava outro povo.
E hoje a terra é livre
 e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina
 é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga
 como as águas dum rio.

[Fernando Namora]

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Poema Cansado de Certos Momentos

 Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens, metade de mim
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens, de gestos saqueados
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz e de roubar distâncias.
Meus braços cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste
ai mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo

para os homens cuspirem o fel das veias
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e  embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
Mãe! tu nunca previste as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido como as ervas
e não olhaste os pegos nem as cobras
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.

Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido?

[Fernando Namora]


Querida Mãe, faz hoje 3 anos que foste embora e tanta coisa que ficou por te dizer. Fica sempre, Mãe nunca avisa quando se vai embora. Lá tenho sobrevivido, não sei como, isto por aqui vai de mal a pior, contigo por aqui as coisas eram bem melhores, fazes-me tanta falta querida Mãe, Grande Amor da minha vida.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Intimidade


acrílico sobre tela – Francisco Charneca

Intimidade

Que ninguém
hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo a dor e a euforia de ter vindo ao mundo.

Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

[Fernando Namora]