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sábado, 18 de dezembro de 2010

O Papão

O Papão

As crianças têm medo à noite, às horas mortas,
Do papão que as espera hediondo, atrás das portas,
Para as levar no bolso ou no capuz dum frade.
Não te rias da infância, oh velha humanidade,
Que tu também tens medo ao bárbaro papão,
Que ruge pela boca enorme do trovão,
Que abençoa os punhais sangrentos dos tiranos,
Um papão que não faz a barba há seis mil anos,
E que mora, segundo os bonzos têm escrito,
Lá em cima, detrás da porta do infinito!

[Guerra Junqueiro]

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Parasitas

Parasitas

No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos
Exploravam assim a flor do sentimento
E o monstro arregalava os grandes olhos baços
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz
Que andais pelo universo há mil e tantos anos
Exibindo, explorando o corpo de Jesus

[Guerra Junqueiro]