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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Quem é que Abraça o meu Corpo


 Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente, ao meu ouvido?

És tu, Senhor dos meus olhos
E sempre no meu sentido.

[António Botto]

sábado, 14 de abril de 2012

Se fosses luz

Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo:  a luz do dia!
Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água, música da terra
Serias água pura e sempre calma!
Mas de tudo que possas ser na vida
Só quero meu amor, que sejas alma!

[António Botto]

domingo, 4 de março de 2012

Cantiga


Se os meus olhos te incomodam
Quando estou na tua frente
Desde já posso arrancá-los
Para te amar cegamente.

Seja o que for, não me importa
Mas sei que não é por mim
Que os teus nervos adoecem
E andam sem governo e assim...
Outra vida, não a minha,
Outro abraço e outro beijo
Te perturba e te desvaira
Não mintas!, porque eu bem vejo!
Mas, continua, vai indo
Sim, vai até te cansares!
Para ver o que tu contas
Se algum dia me voltares!

Não te incomodes comigo.
Nas lágrimas também há
Satisfação e conforto
Nem tudo o que alguém nos mata
Fica perdido ou é morto.
O coração ressuscita
Muita coisa que julgámos
Esquecida para sempre
Nas sombras da realidade
O coração tem uma vida
Que pode tudo no mundo,
Chama-se apenas: Saudade!

Com ela é que eu vou vencendo
Este grande desalento
Que apaga os gritos da carne
Em falas do pensamento!
Agarro-me às sensações
Que foram o dia de ontem
Felicidade sem névoa
Dos nossos dias felizes!
E fico a chorar de raiva
Por não ver bem a mentira
Que há nos silêncios marcados
De tudo quanto me dizes!

Acabou-se!
 E tu desculpa.
Falei, agora e não digo
Nunca mais uma palavra
Acerca do nosso amor.
Fica por lá se quiseres
Até mudares ou seres
Numa nova reacção
Límpida, pura, fremente
Outra tortura presente
Na minha humilde paixão!
Outro céu, outro destino
Ou outra condenação!


[António Botto]

(caixa da felicidade, por Hélio Cunha)



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Se fosses luz…

Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: - a luz do dia!
Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!

Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim a sede
 e a vibração de te beijar!

Se fosses água, música da terra
Serias água pura e sempre calma!
Mas de tudo que possas ser na vida
Só quero, meu amor, que sejas alma!

[António Botto]

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Quem não Ama não Vive


Já na minha alma se apagam
As alegrias que eu tive
Só quem ama tem tristezas
Mas quem não ama não vive.

Andam pétalas e folhas
Bailando no ar sombrio
E as lágrimas, dos meus olhos
Vão correndo ao desafio.

Em tudo vejo Saudades!
A terra parece morta.
oh vento que tudo levas
Não venhas à minha porta!

E as minhas rosas vermelhas
As rosas, no meu jardim
Parecem, assim caídas
Restos de um grande festim!

Meu coração desgraçado
Bebe ainda mais licôr!
Que importa morrer amando
Que importa morrer d'amor!

E vem ouvir bem-amado
Senhor que eu nunca mais vi:
Morro mas levo comigo
Alguma coisa de ti.

[António Botto]

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

De Saudades vou Morrendo

De Saudades vou morrendo
E na morte vou pensando:
Meu amor, por que partiste
Sem me dizer até quando?
Na minha boca tão linda
Oh alegrias cantai!
Mas, quem se lembra d' um louco?
Enchei-vos d' água, meus olhos
Enchei-vos d' água, chorai!

[António Botto]

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Não me peças mais canções

Alfred Gockel

Se passares pelo adro
No dia do meu enterro,
Dize à terra que não coma
Os anéis do meu cabelo.

Já não digo que viesses
Cobrir de rosas meu rosto
Ou que num choro dissesses
A qualquer do teu desgosto

Nem te lembro que beijasses
Meu corpo delgado e belo
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.

Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

Se a minha voz conseguisse
Dissuadir essa frieza
E a tua boca sorrisse !
Mas sóbria por natureza

Não a posso renovar
E o brilho vai-se perdendo…
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

[António Botto]