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sábado, 19 de maio de 2012

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei  a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

[Mia Couto]

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Demora

 O amor condena-nos :
demoras, mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.
Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou, senão saudade
e as flores tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo  deita-se no meu,
um rio vai-se  aguando até ser mar.

[Mia Couto]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Amor, Meu Amor

O nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
As minhas pernas são água
as tuas são luz e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito na tua claridade
para me cegar
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
Tu  bebes-me
e eu converto-me na tua sede.
Os meus lábios mordem
Os meus dentes beijam
A minha pele veste-te
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade
 ser a minha própria espera.
 Mas eu deito-me no teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Os teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

[Mia Couto]

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Segundo poema da alienação


Dai-me o que de mim resta
para que, incompleto
me perca na contemplação
do tempo por encontrar
da viagem por percorrer
Dai-me a estrela ardente
a picada sem destino
a luz mortiça
desvendando o alfabeto
convoquem todas as crianças
e encham-se de rostos
as janelas das escolas
Devolvam-me ao corpo ferido
de onde se escoou o sangue
de um companheiro fardado
Em redor da sombra
ergam-se paredes de claridade
estilhace-se em mil pedaços
o meu nome, minha palavra
para que na transpiração dos corpos
o poema produza
e se reconstrua
como veia que reencontra o corpo.

[Mia Couto]

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sem depois

("Sol Poente", de Tarsila do Amaral, 1929)

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos
se desfizeram em redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei a minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.


[Mia Couto]

domingo, 16 de janeiro de 2011

Solidão...

Solidão

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

[Mia Couto]


quarta-feira, 28 de julho de 2010

A vida deve ser bebida


A vida deve ser bebida

Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar

ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida…ensinaram-me assim..
Deve ser bebida!

[Mia Couto]