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quarta-feira, 18 de abril de 2012

MEMÓRIA

Meu coração de lusitano antigo
bateu às portas de Toledo, a estranha.
Mais roto e ensanguentado que um mendigo.
só a saudade as passos lhe acompanha.

Pois a saudade ali me deu abrigo.
ao pé do Tejo que a Toledo banha.
Levava os dias a falar comigo
como um pastor com outro na montanha.

Em todo o mundo há terra portuguesa
desde que a alma a tenha na lembrança
e a sirva sempre com fervor igual.

Talvez por isso, em horas de tristeza
eu pude à sua amada semelhança
criar p'ra mim um novo Portugal!

[António Sardinha]


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Variações da Saudade

Saudade, pão de sustento
meu vinho de consagrar
ai  Deus “i u é” Saudade
sem ti não posso passar!

Saudades vivas da Terra
vivas saudades do Mar...
Oh  o desejo impossível
de se partir e ficar!

Sereias, Nau Catrineta
Sete-Partidas do Mundo...
Quem é que mede a Saudade,
se é como um poço sem fundo ?!

«A vida acaba na morte,
não pode a alma morrer!»
Oh, a saudade sem nome
de ser a gente e não ser!


[António Sardinha]

terça-feira, 28 de junho de 2011

Vesperal

Se eu te pintasse, posta na tardinha
pintava-te num fundo cor de olaia
na mão suspensa, nessa mão que é minha
o lenço fino acompanhando a saia!

Vejo-te assim, ó asa de andorinha
em ar de infanta que perdeu a aia
envolta numa luz que te acarinha
na luz que desfalece e que desmaia!

Com teu encanto os dias me adamasques
linda menina ingénua de Velásquez
a flutuar num mar de seda e renda.

Deixa cair dos lábios de medronho
a perfumada voz do nosso sonho
mas tão baixinho que só eu entenda!


[António Sardinha]

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Invocação

Invocação

Oh Terra de Antre Tejo e Guadiana
onde há contrabandistas e malteses
oh Terra que és fronteira à castelhana
e a tens metido em ordem tantas vezes!

Terra das claras vilas com cegonhas
no alto dos mirantes sobre o imenso!
Paisagens religiosas e tristonhas
aonde o rosmaninho faz de incenso…

Ruínas penduradas no Distante
com atitudes calmas de ermitério…
Oh Terra, em cujo chão febricitante
palpita um formidável cemitério!

Terra das fortalezas truculentas
minha adeantada-mor de Portugal
Oh Terra que o abasteces, que o sustentas
que és um celeiro enorme, sem igual!

Oh Terra que da espada aventureira
tiraste ao vir das pazes a charrua!
O arado quando chega a sementeira
como ele empeça em tanta ossada nua!

Terra de coração em brasa viva
queimada no furor canicular!
Terra de quem a gente se cativa
Se a água das nascentes lhe provar!

Terra de natural dormente e langue
onde padecem lobisomens, bruxas…
Voz do Longínquo, ó tentação do Sangue
não sei em que ânsias doidas me estrebuchas!

Oh Terra estranha que a perder nos deitas
com endemoninhada beberagem!
Oh terra da lavoira, das colheitas
Das feiras e arraiaes, da ciganagem!

Terra de São João de Deus, oh Terra
onde a Rainha-Santa quis morrer!
À flor dos horizontes paira e erra
uma saudade líquida a escorrer…

Terra de meus Avós, dos bom Maiores
aonde a minha Árvore descansa!
Terra regada com seus suores
Aonde eu vejo a sua semelhança!

A sua semelhança está comigo
em mim a cada hora se renova
oh Terra que me foste berço amigo
oh Terra que serás a minha cova!

Postas as mãos, em oração ardente
oh Terra de Crisfal e Bernardim
peço-te a bênção comovidamente
que a tua bênção desça sobre mim!

[António Sardinha]