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domingo, 11 de março de 2012

S I N T O

Sinto
que nas minhas veias
 arde sangue
chama vermelha
 que vai cozendo
as minhas paixões
 no coração.

Mulheres, por favor
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.

[Federico García Lorca]

quarta-feira, 2 de março de 2011

A casada infiel

Eu que a levei ao rio
pensando que era donzela
porém tinha marido.

Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Apagaram-se os lampiões
e acenderam-se os grilos.
Nas últimas esquinas
toquei seu peito adormecido
e abriram-se prontamente
como ramos de jacintos.
A goma da sua anágua
soava ao meu ouvido
como uma peça de seda
rasgada por dez punhais.
Sem luz de prata nas suas copas
as árvores estão crescidas
e um horizonte de cães
ladra muito longe do rio.

Passadas as sarçamoras
os juncos e os espinhos
debaixo de seus cabelos
fiz uma cova sobre o limo.
Eu tirei a gravata.
Ela tirou o vestido.
Eu, o cinturão com revólver.
Ela, seus quatro corpetes.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina,
nem os cristais com lua
reluzem com esse brilho.
Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos
a metade cheias de lume
a metade cheias de frio.
Aquela noite corri
o melhor dos caminhos
montado em potra de nácar
sem bridões e sem estribos.
Não quero dizer, por homem
as coisas que ela me disse.
A luz do entendimento
me faz ser muito comedido.
Suja de beijos e areia
eu a levei do rio.
Com o ar se batiam
as espadas dos lírios.

Portei-me como quem sou.
Como um cigano legítimo.
Dei-lhe um estojo de costura
grande, de liso palhiço
e não quis enamorar-me
porque tendo marido
disse que era donzela
quando a levava ao rio.

[Federico García Lorca]

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Confusão

Meu coração
é teu coração?
Quem me reflexa pensamentos?
Quem me presta
esta paixão
sem raízes?
Por que muda meu traje
de cores?
Tudo é encruzilhada!
Por que vês no céu
tanta estrela?
Irmão, és tu
ou sou eu?
E estas mãos tão frias
são daquele?
Vejo-me pelos ocasos
e um formigueiro de gente
anda por meu coração.

[Federico García Lorca]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Se as minhas mãos pudessem desfolhar


Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio o teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu  sinto-me oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
horas mortas antigas.

Eu pronuncio o teu nome,
nesta noite escura,
e o teu nome  soa-me
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem o meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se os meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

[Federico García Lorca]