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sábado, 19 de maio de 2012

O horizonte das palavras

Sem direcção, sem caminho
escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra
as palavras que se tornam calhaus na boca
 ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio
de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas
um organismo verde aberto sobre o mar
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias
 nas suas pontes de música visual:
 o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.



[António Ramos Rosa]

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A palavra

A palavra é uma estátua submersa
um leopardo que estremece em escuros bosques
uma anémona sobre uma cabeleira.
Por vezes é uma estrela que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite
 cega e nua,mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada.
Rápida é a boca que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos
os cabelos ardentes e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.

[António Ramos Rosa]

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Uma Voz na Pedra

Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu
 na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria
 e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria
 do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre
 de sombra fulgurante.
A minha ebriedade
 é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha
 quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei.
 Amo em total abandono.
Sinto a minha boca
 dentro das árvores
 e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente
 algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida
 estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez
 e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega
 nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera
 ser aberto por uma palavra.

[António Ramos Rosa]

domingo, 18 de dezembro de 2011

Teu Corpo Principia


Dou-te
um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
Nesta hora, aqui.

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol , verdade
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura
oh tão delgada.

Se é milagre existires
teus pés nas minhas palmas.

Oh maravilha
Existo no mundo
dos teus olhos.

Oh vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

[António Ramos Rosa]

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Festa do Silêncio

 
Escuto na palavra
a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio.
As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam
 tão próximas de si mesmas.
Concentram-se
dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo?
É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas
 o tempo acaricia, o ar prolonga.
 A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa:
a simples respiração.
Relações, variações, nada mais.
 Nada se cria e vimos.
Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível
no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente
 o vento principia.
No centro do dia
 há uma fonte de água clara.
Se digo árvore
 a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

[António Ramos Rosa]

                                                         

terça-feira, 5 de julho de 2011

Os anjos que conheço são de erva e de silêncio

Os anjos que conheço são de erva e de silêncio
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros

O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte
o vazio rodopia, é o celeste inferno.

Desço ainda um degrau com o anjo infernal
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?

[António Ramos Rosa]