terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O quotidiano "não"


Estamos todos bem servidos
de solidão.
De manhã a recolhemos
do saco, em lugar de pão.
Pão é claro que temos
(não sou exageradão)
mas esta imagem do saco
contendo um pequeno «não»
não figura nesta prosa
assim do pé para a mão
pois o saco utilizado
que pode ser o do pão
recebe modestamente
a corriqueira fracção
desse alimento que é
tão distribuído, tão
a domicílio como
o leite ou o pão.
Mas esse leitor aí
(bem real!) já diz que não
que nunca viu no tal saco
o tal «não».
Ao que o poeta responde
sem maior desilusão:
Para dizer a verdade
eu também não...
Mas estava confiante
na sua imaginação
(ou na minha...) e que sentia
como eu a solidão
e quanto ela é objecto
da carinhosa atenção
de quem hoje nos fornece
o quotidiano «não»
por todos os meios, desde
a fingida distracção
até ao entre-parêntesis
de qualquer reclusão...


[Alexandre O´Neill]

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