segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Versos desencontrados

Versos desencontrados

Em nada ou em ninguém eu deveria acreditar!
Nem no amor, nem na vida.
 - As ilusões, mesmo até quando vêm disfarçadas
e já conhecem o cliente, hesitam e chegam a partir envergonhadas...
 -As ilusões também têm os seus mais preferidos;
E àqueles que ficaram na ruína do pensamento
 e são - por graça de conquista
os pálidos mortais desiludidos.
A esses já não correm muito afoitas
Na mentira das grandes fantasias!
- É por isso que eu hoje ainda vivo
à margem das ridículas tragédias
que lemos nos jornais todos os dias.

Atulham-se os presídios no degredo,
Atados à saudade vão ficando,
- Como lesmas ao luar, esses que matam
e pelo amor tombaram na desgraça:
- Um sonho, um beijo, uma mulher que passa!
Só a guitarra os lembra ao triste fado
nos ecos diluídos e chorosos
e fundos do lusíada, coitado!
Eu olho para tudo que enxameia
nesta viela escura da existência,
como quem se debruça num abismo
e fica revolvendo a consciência
na tristeza infinita de um olhar!... 
- A humanidade é vil e o seu egoísmo
tem base na vileza de vexar.

Sim!
Por qualquer coisa os homens tudo vendem:
Palavra, dignidade, a própria vida,
só porque desconhecem a doutrina
bendita de Jesus; - esse tesoiro,
essa fonte de luz onde aprendi
a ser leal e amigo e a respeitar
aquela, que nos risos do meu lar,
desembaraça os fios de uma queixa,
no mistério que cinge o verbo amar.

Mas quando um ano acaba e outro vem,
embora a minha fronte e os meus cabelos
envelheçam, na marcha para o fim
e um sabor de renúncia e de cansaço,
vibre, cantando, aqui dentro de mim.

Rebenta-me no peito uma esperança,
tão lúcida, tão viva e tão ungida
na fé que ponho, erguendo a minha prece -
que peço a Deus do fundo da minha alma,
que a todos os que sofrem neste mundo,
dê o conforto de uma vida calma.



[António Botto]

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