domingo, 10 de junho de 2012

Encanta-me com resquícios de lua

Serena a montanha quando acorda
Com ela acordam cheiros
fragrâncias que se espreguiçam
como risos azuis buscando o dia

Despertam árvores
estendendo ramos

Renasço
paulatinamente
no respirar do teu corpo descansado

Deixa que me deite
no leito da tua pele
para que te sussurre:
Espalha o teu sonho
pelo meu avesso.

[Cristina Miranda]

o homem que já não sou

não me olhes agora que estou
mais velho e não correspondo em
nada ao homem que amaste
 procura encarar a tristeza
sem me incluíres, seria demasiado
cruel que me usasses para a dor.
 para ti quis trazer as coisas mais belas
e em tudo o que fiz pus o cuidado
 meticuloso de quem ama.
 não me obrigues a cortar os
pulsos quando fores num minuto ao
jardim com o cão

esta noite, sem notares, sustive a
respiração e quase morri.
 não deste por nada.
 julgaste que voltei a ressonar
 e até terás esboçado um sorriso.
 e se eu pudesse morrer
enquanto sorris, pergunto

deixo para depois, ou talvez
desista. mas não pode ser se
tu me olhares em busca
 de tudo o que já não existe.
não pode ser, levo a faca maior
 para debaixo do meu travesseiro
juro-te que me mato
 se continuares assim

[valter hugo mãe]

sábado, 9 de junho de 2012

O Espírito

 Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

[Natália Correia]

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Silêncio

 Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças
as pequenas mentiras e as grandes
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

[Octavio Paz]

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Alheamento

Meu corpo estiraçado, lânguido, ao longo do leito.
O cigarro vago azulando os meus dedos.
O rádio... a música...
A tua presença que esvoaça
em torno do cigarro, do ar, da música...
Ausência! minha doce fuga!
Estranha coisa esta, a poesia
que vai entornando mágoa nas horas
como um orvalho de lágrimas, escorrendo dos vidros
duma janela
numa tarde vaga, vaga...


[Fernando Namora]

“…entre nós e as palavras, o nosso dever falar”

 Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras intensas, que esperam por nós
e outras frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição.

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamante palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

[Mário Cesariny]

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Elogio da Amada


 Ei-la que vem ubérrima numerosa escolhida
secreta cheia de pensamentos isenta de cuidados
Vem sentada na nova primavera
cercada de sorrisos no regaço lírios
olhos feitos de sombra de vento e de momento
alheia a estes dias que eu nunca consigo
Morde-lhe o tempo na face as raízes do riso
começa para além dela a ser longe
A amada é bem a infância que vem ter comigo
Há pássaros antigos nos límpidos caminhos
e mortes como antes nunca mais
Ei-la já que se estende ampla como uma pátria
no limiar da nossa indiferença
Os nossos átrios são para os seus pés solitários
Já todos nós esquecemos a casa dos pais
ela enche de dias as nossas mãos vazias
A dor é nela até que deus começa
eu bem lhe sinto o calcanhar do amor
Que importa sermos de uma só manhã
e não haver em volta
árvore mais açoitada pelos diversos ventos?
Que importa partirmos num desmoronar de poentes?
Mais triste mesmo a vida onde outros passarão
multiplicando-lhe a ausência que importa
se onde pomos os pés é primavera?

[Ruy Belo]

terça-feira, 5 de junho de 2012

A Eterna Ausência

 Eu aguardei com lágrimas
 e o vento suavizando o meu instinto aberto
no fumo do cigarro ou na alegria das aves
o surgimento anónimo, no grande cais da vida
 desse navio nocturno
que me trazia aquela com lábios evidentes
e possuindo um perfil indubitável
mulher com dedos religiosos
e braços espirituais...

Aquela mulher-pirâmide
 com chamas pelo corpo
e gritos silenciosos nas pupilas.

Amante que não veio como a noite prometera
numa suspensa nuvem
 acordar meu coração de carne e alguma cinza...

Amante que ficou não sei aonde
a castigar meus dias involúveis
ou a afogar meu sexo na caveira
deste carnal desespero!...

[António Salvado]